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Cientistas descobrem sistema planetário com sete 'irmãos' da Terra

Astros estão na órbita de uma estrela anã próxima e podem ter água líquida na superfície, condição para existência de vida; estudo foi publicado na 'Nature'

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

22 Fevereiro 2017 | 15h00
Atualizado 23 Fevereiro 2017 | 15h51

SÃO PAULO - Cientistas anunciaram nesta quarta-feira, 22, a descoberta de um sistema com sete planetas de tamanho comparável ao da Terra, na órbita de uma estrela “vizinha” do Sistema Solar. De acordo com o estudo publicado na revista Nature, os seis planetas mais próximos da estrela têm temperaturas entre 0 e 100 °C - uma característica considerada indispensável para a eventual existência de vida.

“É a primeira vez que tantos planetas desse tipo são encontrados em um só sistema planetário. Eles estão em órbita muito estreita entre si e muito próximos de sua estrela, mas ela é tão pequena e fria que os planetas são temperados. Por isso, poderiam ter água líquida e, por extensão, teriam condições de abrigar vida”, disse o autor principal do estudo, o astrofísico Michaël Gillon, da Universidade de Liège, na Bélgica. 

Segundo Gillon, os novos planetas são agora “o melhor alvo” para o estudo de atmosferas de planetas potencialmente habitáveis semelhantes à Terra. “Essa descoberta pode ser uma importante peça no quebra-cabeças da busca de ambientes habitáveis que possam abrigar vida”, disse o diretor da área de missões científicas da Nasa, Thomas Zurbuchen. “Responder se estamos sozinhos no Universo é uma prioridade máxima da ciência e descobrir tantos planetas como esses pela primeira vez na zona habitável é um notável passo adiante em direção a esse objetivo.”

De acordo com o estudo, o novo sistema planetário fica a 39 anos-luz da Terra - uma distância pequena para os padrões astronômicos. Ainda assim, o instrumento mais veloz já construído pelo homem - a nave Juno, que viaja a 265 mil quilômetros por hora - levaria quase 160 mil anos para chegar lá.

Os novos exoplanetas têm massa semelhante à da Terra e, segundo os cientistas, também devem ser rochosos como ela. A estrela anã no centro do sistema - chamada Trapppist-1 - é tão pequena que não chega a ser muito maior do que Júpiter. Sua massa equivale a 8% da massa solar e seu brilho é cerca de mil vezes mais fraco que o do Sol. Segundo Gillon, enquanto a temperatura na superfície do Sol é de 5,5 mil°C, na Trappist-1 o calor é de “apenas” 2,2 mil°C. 

A descoberta partiu de pesquisas lideradas por Gillon. Sua equipe descobriu a estrela Trappist-1 em 2010 e, em maio do ano passado, relatou a detecção de três exoplanetas que a orbitavam. A partir daí, os autores passaram a monitorar intensamente a estrela, o que permitiu identificar mais quatro.

Para a detecção e o estudo dos planetas do sistema Trappist-1, foram usados o telescópio espacial Spitzer, da Nasa, e o telescópio Trappist, instalado no Chile, em 2010, pela equipe de Gillon. Com os dados obtidos, foi possível calcular a massa dos exoplanetas e as distâncias entre eles e a estrela.

De acordo com Gillon, no entanto, será preciso fazer novos estudos para caracterizar cada um dos planetas. “Conseguimos obter medidas e dados de seis dos sete planetas. No que diz respeito ao planeta mais distante da estrela, porém, ainda desconhecemos seu período orbital e sua interação com os outros seis planetas”, explicou o astrofísico belga.

Ano de 13 dias. Os seis planetas mais próximos têm períodos orbitais - isto é, o tempo que o planeta leva para dar uma volta completa em sua estrela -, que vão de 1,5 a 13 dias. O fato de um “ano” nesses planetas durar apenas alguns dias ocorre porque eles estão muito próximos de uma estrela tão pequena.

O planeta mais próximo da estrela é o mais rápido de todos: quando ele completa oito órbitas, o segundo, o terceiro e o quarto planetas perfazem, respectivamente, cinco, três e duas voltas ao redor da estrela. 

PARA ENTENDER

Exoplanetas e ‘zona habitável’

Todos os planetas que existem fora do Sistema Solar - isto é, que giram em torno de outras estrelas, assim como a Terra gira em torno do Sol - são chamados pelos cientistas de exoplanetas. Segundo os autores do novo estudo, pelo menos três dos sete exoplanetas descobertos estão com certeza na chamada “zona habitável”, isto é, ficam a uma distância de sua estrela que permitiria, teoricamente, a existência de água líquida em sua superfície - uma característica indispensável para a existência de vida. 

Se o exoplaneta estiver muito longe da estrela, a água congela. Se estiver muito próximo, as altas temperaturas a fazem evaporar - nos dois casos, a existência de vida é impossível. Quanto maior e mais quente é a estrela, mais distante dela fica localizada a faixa de zona habitável.

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