Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Cientistas desistem de assinar artigo científico por medo de retaliação do governo

Publicado na 'Global Change Biology', o trabalho demonstrou que as queimadas deste ano na Amazônia foram as piores registradas desde 2010. 'Há medo de se divulgar análise que vá de encontro à narrativa oficial', diz pesquisadora

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2019 | 00h03

RIO - Cientistas e servidores de instituições federais brasileiras ligadas ao meio ambiente decidiram não assinar um estudo sobre a devastação da Amazônia por medo de retaliações por parte do atual governo. Publicado no último domingo na Global Change Biology, o trabalho demonstrou que as queimadas deste ano na Amazônia foram as piores registradas desde 2010.

“Alguns colaboradores declinaram da autoria para manter o anonimato”, apontaram os autores no fim do artigo. “Lamentamos que isso seja necessário e agradecemos a eles por sua importante contribuição.” O estudo avaliou as alegações do governo Jair Bolsonaro de que os incêndios registrados em agosto eram “normais” e “abaixo da média histórica” – uma análise que acabou sendo derrubada de vez nesta segunda-feira, 18, com a divulgação dos números oficiais do desmatamento.

“O objetivo do nosso trabalho era justamente analisar a narrativa do governo na época e mostrar que ela estava errada apresentando evidências”, explicou a pesquisadora Erika Berenguer, da Universidade de Oxford e de Lancaster (Reino Unido), que estuda o desmatamento há dez anos e é uma das autoras do trabalho. “Isso gerou o medo de retaliações.”

Erika citou o caso de Ricardo Galvão, o ex-presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que foi afastado do cargo pelo governo ao apresentar os números oficiais do desmatamento.

Outro caso que ficou conhecido foi do servidor do Ibama José Augusto Morelli, exonerado pelo atual governo de um cargo de chefia na Diretoria de Proteção Ambiental. Morelli foi o responsável por uma ação de fiscalização em janeiro de 2012, que acabou multando o então deputado Jair Bolsonaro em R$ 10 mil por pesca ilegal em Angra dos Reis.

A pesquisadora citou também a história do oceanógrafo José Martins da Silva Júnior, transferido de Fernando de Noronha para a o sertão pernambucano. A Justiça acabou barrando a transferência do servidor do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que trabalha com golfinhos e é um grande crítico do aumento do turismo em Fernando de Noronha. A transferência foi determinada após uma visita do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, à ilha no litoral nordestino.

“Esse tipo de ação gera medo nas pessoas de divulgar qualquer análise que vá de encontro à narrativa oficial”, justificou Erika. Procurados, os ministérios do Meio Ambiente e da Ciência e Tecnologia não comentaram o estudo nem a opção dos cientistas pelo anonimato. /COLABOROU FABIO GRELLET

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