Cientistas do governo dos EUA reclamam de censura política

Pesquisa disse que 60% dos cientistas da EPA reportaram já terem passado por incidentes de censura

AP

24 de abril de 2008 | 16h22

Centenas de cientistas do governo norte-americano dizem ter sido vítimas de interferência política e pressões de seus superiores para deformar suas descobertas, de acordo com uma pesquisa divulgada na quarta-feira, 23, por um grupo não-governamental. A Union of Concerned Scientists (algo como União dos Cientistas Preocupados) disse que mais da metade dos cerca de 1.600 cientistas da Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) que responderam a um questionário online reportaram já terem passado por incidentes de interferência política em seu trabalho.  O porta-voz da EPA, Jonathan Shradar, atribuiu na quarta-feira, 23, parte do descontentamento à "paixão" que cientistas sentem por seus trabalhos. Ele disse que o administrador da EPA, Stephen Johnson, ele mesmo como um cientista que trabalha há anos na EPA, "pesa fortemente a ciência dada a ele pela equipe, ao tomar decisões a respeito da política." No entanto, Francesca Grifo, diretora do programa de integridade científica da Union of Concerned Scientists, disse que os resultados da pesquisa revelaram "uma agência em crise" com baixo moral, especialmente entre os cientistas envolvidos na avaliação de riscos e no desenvolvimento de regulamentos.  "A investigação mostra que pesquisadores geralmente continuam fazendo seus trabalhos, mas suas descobertas científicas são deixadas de lado quando chega a hora de escrever os regulamentos", disse Grifo.  O grupo mandou um questionário online para 5.500 cientistas da EPA e recebeu 1.586 respostas, na maioria de cientistas que trabalham na agência há dez anos ou mais. A pesquisa incluiu químicos, toxicologistas, engenheiros, geólogos e especialistas em ciências da vida e do meio ambiente.  O relatório disse que 60% dos que responderam, 889 cientistas, reportaram terem pessoalmente experimentado o que avaliaram como uma interferência política em seu trabalho, durante os últimos cinco anos. Quatro em cada dez cientistas que trabalharam na agência por mais de uma década disseram acreditar que esse tipo de interferência tenha prevalecido mais nos últimos cinco anos que nos anteriores.  Timothy Donaghy, um dos co-autores do relatório, reconheceu que grande parte dos cientistas não respondeu à pesquisa e disse que os achados não devem ser atribuídos a uma amostra aleatória de cientistas da EPA. No entanto, disse Donaghy, "temos centenas de cientistas dizendo que há um problema" com a integridade científica da principal agência ambiental reguladora do governo. Quando foi pedido ao porta-voz da EPA que respondesse a pesquisa, Shradar disse, "nós temos os melhores cientistas do mundo na EPA." A EPA tem estado sob fogo cruzado dos membros do Congresso em diferentes frentes, incluindo seu atraso na determinação da regulamentação das emissões de dióxido de carbono para o combate do aquecimento global. Johnson também foi criticado por rejeitar recomendações de juntas científicas em uma série de questões referentes à poluição do ar, incluindo o controle do mercúrio na produção de energia e quanto reduzir a poluição smog.

Tudo o que sabemos sobre:
políticaciênciaEUA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.