Cientistas encontram 'arte neandertal' em caverna na Europa

Descoberta sugere que primos desaparecidos do homem moderno também eram capazes de conceber abstrações

AFP

02 Setembro 2014 | 18h45


A descoberta de gravações de formas geométricas de mais de 39 mil anos de antiguidade em uma gruta de Gibraltar, no extremo sul da Península Ibérica, é o primeiro exemplo de arte dos neandertais, o que, para os pesquisadores, sugere que estes primos desaparecidos do homem moderno também eram capazes de conceber abstrações.

"É o primeiro desenho gravado abstrato (...) e deliberadamente feito sobre a parede de uma gruta por alguém que não é um humano moderno", destacou Clive Finlayson, diretor do museu de Gibraltar e coordenador de uma equipe internacional de pesquisa. Nesta segunda-feira, 1º, foram publicados os resultados dos trabalhos que deram lugar a esta descoberta no informe da Academia de Ciências Norte-Americana (PNAS, em inglês).

O achado, na gruta de Gorham, situada em um precipício em frente ao Mediterrâneo, "põe os neandertais mais próximos do homem moderno e sugere que tinham capacidades mentais equivalentes às nossas", acrescentou Finlayson.

O desenho em questão se compõe de profundos sulcos lineares dispostos na horizontal e na vertical que se cruzam. "É o primeiro exemplo de arte nas cavernas, uma representação abstrata feita pelos neandertais e profundamente gravada na pedra, na parte da gruta em que viviam", explicou Francesco D'Errico, diretor de pesquisa do Centro Nacional francês de Investigação Científica (CNRS, em francês), e principal coautor do estudo.

"Sabíamos que os neandertais utilizavam pigmentos, e também haviam sido encontrados objetos com desenhos ou entalhes, às vezes com decorações que pareciam bastante abstratas; mas nunca tínhamos descoberto exemplos de que marcavam as paredes das grutas com ferramentas", acrescentou.

A análise desta gravura, mediante reproduções digitais em três dimensões a partir de fotos, permitiu compreender as etapas de sua realização e ver que não foi produto nem de fenômenos naturais nem de atividades utilitárias, como por exemplo cortar carne ou peles, disse o antropólogo.

Os pesquisadores consideraram que estes sulcos são o resultado de passar de forma repetida a ponta de uma ferramenta muito dura entre 188 e 317 vezes, segundo sugere o exame microscópico da gravura.

A representação estava no fundo da gruta, na parte ocupada há mais tempo. Quando foi encontrada, estava coberta de uma capa de sedimentos de mais de 39 mil anos, segundo a datação por radiocarbono.          

A gruta de Gorham foi habitada primeiro por neandertais, há 67 mil anos, que foram substituídos há 40 mil anos pelos homo sapiens.

Para os pesquisadores, esta descoberta enfraquece a hipótese de que as representações abstratas e figurativas nas paredes das cavernas foram uma inovação cultural introduzida pelos humanos modernos ao colonizar a Europa.


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