Cientistas encontram 'elo perdido' entre répteis e peixes lagartos

Fóssil de ictiossauro anfíbio, descoberto em província chinesa, tinha nadadeiras excepcionalmente grandes e flexíveis

FÁBIO DE CASTRO , O Estado de S. Paulo

05 Novembro 2014 | 17h16

Pesquisadores norte-americanos encontraram na China o primeiro fóssil de um ictiossauro anfíbio. Os ictiossauros - palavra derivada do grego que significa "peixe lagarto" - eram répteis pré-históricos aquáticos que tinham ancestrais terrestres, mas até hoje não havia fósseis que demonstrassem sua transição da terra para o mar. A descoberta, publicada na edição desta quarta-feira, 5, da revista Nature, preencheu essa lacuna evolutiva.

De acordo com o autor principal do artigo, Ryosuke Motani, da Universidade da Califórnia em Davis (Estados Unidos), o novo fóssil, com cerca de 45 centímetros, é do período triássico e tem cerca de 248 milhões de anos. "Algumas pessoas questionavam a Teoria da Evolução com base no fato de não existir prova concreta da ligação entre os répteis terrestres e os ictiossauros. Agora temos essa prova", disse Motani.

Segundo Motani, o novo fóssil, descoberto na província chinesa de Anhui, tinha nadadeiras excepcionalmente grandes e flexíveis, que não eram encontradas nos ictiossauros adaptados exclusivamente à vida aquática. "Essas nadadeiras, aliadas a punhos flexíveis, provavelmente permitiam que ele se movimentasse em terra firme de maneira semelhante à das focas. A maioria dos ictiossauros também têm focinhos longos, parecidos com bicos. O novo animal tinha um focinho curto como os dos répteis terrestres", afirmou.

O ictiossauro anfíbio, segundo Motani, tinha também um corpo com ossos mais grossos que os ictiossauros aquáticos. "Provavelmente, a maior parte dos répteis que migraram da terra para o mar tinham ossos mais pesados que os dos répteis marinhos. Essa ossatura mais robusta permitia que eles nadassem para ultrapassar as fortes ondas do litoral antes de chegar a alto mar."

Motani declarou que as implicações do estudo vão além da Teoria da Evolução. O ictiossauro anfíbio viveu cerca de 4 milhões de anos depois da pior extinção em massa da história da Terra, há 252 milhões de anos. De acordo com ele, há grande interesse científico em saber quanto tempo os animais e plantas levaram para se recuperar depois daquele período de destruição e que estratégias usaram para isso. 

"Foi uma extinção causada por um aquecimento global análogo ao que ocorre hoje. Naquele contexto, muitas espécies foram extintas, mas surgiram outras, como esses ictiossauros anfíbios. Agora temos um ponto de partida para saber que fatores climáticos e geográficos levaram esses répteis para o mar. Nossas hipóteses principais são um aumento na pressão dos predadores e a competição pela comida, que provavelmente era menor no mar que nas terras adjacentes", afirmou.

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