Centro de Geobiologia Bergen, Noruega - R.B. Pedersen
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Cientistas encontram 'Loki', o 'elo perdido' da vida complexa

Estudos sobre novo micróbio mostram que ele pode ser a ligação evolutiva entre organismos simples e formas de vida mais complexas

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

07 Maio 2015 | 20h42

Cientistas da Universidade de Uppsala, na Suécia, descobriram um novo micróbio que pode ser o "elo perdido" na evolução dos micróbios para formas de vida mais complexas. O estudo, publicado nesta quinta-feira, 7, na revista Nature, mostra como os tipos complexos de células - que existem em plantas, fungos, animais e humanos - evoluíram há bilhões de anos a partir de micróbios com células muito mais simples.

Todos os organismos vivos do planeta são feitos de células, mas, enquanto micróbios como as bactérias têm células procarióticas - isto é, pequenas e simples, sem um núcleo organizado -, organismos mais complexos têm células eucarióticas, que possuem um núcleo definido, separado por uma membrana, onde se dispõem o DNA e diversas organelas com funções variadas.

Até agora, a origem das células eucarióticas tem sido um mistério. Mas o novo grupo de microorganismos descoberto pelos cientistas suecos pode ser a peça que faltava no quebra-cabeças dessa transição evolutiva. O novo organismo, batizado de Lokiarchaeota, encontrado em amostras de sedimentos a dois mil metros de profundidade no Oceano Ártico, tem células desprovidas de núcleo - como os procariontes -, mas também possui características dos eucariontes. Segundo os autores, o organismo, apelidado de Loki, é um meio termo entre as duas formas de vida. 


"O quebra-cabeças da origem da célula eucariótica é extremamente complicado, já que faltam muitas peças. Esperávamos que o Loki pudesse revelar algumas peças a mais, mas quando obtivemos os primeiros resultados, nem podíamos acreditar no que vimos. Os dados pareciam simplesmente espetaculares", disse o líder da equipe que produziu o estudo, Thijs Ettema, do Departamento de Biologia Celular e Molecular da Universidade de Uppsala. "Ao estudar o genoma do Loki, descobrimos que ele está em uma posição intermediária entre as células simples de micróbios e as células complexas dos eucariontes", afirmou Ettema.

Na década de 1970, o biólogo Carl Woese descobriu um novo grupo de microorganismos - que ficou conhecido como Archaea - e representa um ramo separado da Árvore da Vida. Isto é, não eram animais, nem plantas, nem fungos, nem bactérias. Os cientistas descobriram que, embora tivessem células simples e pequenas como as das bactérias, os espécimes de Archaea, do ponto de vista filogenético - que analisa a história evolutiva de uma espécie - estavam mais próximos dos organismos eucariontes. De acordo com os autores do novo estudo, o Loki confirma essa ideia.

"Descobrimos também que o Loki compartilha vários genes unicamente com os eucariontes, sugerindo que a complexidade celular emergiu em um estágio precoce da evolução dos eucariontes", disse outra autora do estudo, Anja Spang, também da Universidade de Uppsala.

O nome Lokiarchaeota é derivado do ambiente hostil no qual o microorganismo foi encontrado, o Castelo de Loki, um sistema de fontes hidrotermais localizado entre a Groenlândia e a Noruega, a 2352 metros de profundidade. "As fontes hidrotermais são sistemas vulcânicos que ficam no solo do oceano. O local é fortemente influenciado pela atividade vulcânica, mas tem temperaturas bastante baixas", afirmou Ettema. Segundo Ettema, ambientes extremos como esses, em geral, contêm diversos microorganismos desconhecidos. "De certo modo, estamos só começando. Ainda há muita coisa lá embaixo para ser descoberta. Eu estou convencido de que, em um futuro próximo, nós seremos forçados a revisitar nossos livros escolares de biologia com mais frequência", declarou Ettema.

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