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Cientistas encontram primeiro peixe de sangue quente

O estudo, publicado na revista Science, mostra que mamíferos e aves não são os únicos com capacidade de aquecer o sangue

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

14 Maio 2015 | 19h17

Em águas geladas e escuras, de 50 a 300 metros de profundidade, cientistas dos Estados Unidos revelaram o primeiro peixe de sangue quente. O estudo, publicado nesta sexta-feira, 15, na revista Science, mostra que os mamíferos e aves não são os únicos animais com a capacidade de aquecer o sangue que circula no corpo, mantendo-o em temperatura superior à do ambiente. 

O Lampris guttatus - conhecido popularmente como peixe-lua, peixe-papagaio ou peixe-cravo - tem em média 1,5 metro e habita oceanos de todo o mundo.

O sangue quente, segundo os autores, permite que ele nade com mais agilidade, tenha reações mais rápidas e enxergue melhor. Tudo isso o torna um predador de alta performance, algo incomum em águas que ficam em torno de 5ºC.


"Achávamos que se tratava de um peixe com movimentos lentos, como a maior parte dos peixes de ambientes frios, que precisam conservar energia emboscando suas presas, em vez de caçá-las. Mas, como ele consegue aquecer o próprio corpo, se torna um predador rápido e ágil", disse o autor principal do estudo, Nick Wegner, da NOAA Fisheries, ligada à Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos.

Os cientistas coletaram dados de temperatura de exemplares do L. guttatus pescados na costa da Califórnia, em águas a 10ºC. Eles verificaram que a temperatura do corpo dos animais se mantinha regularmente em torno de 15ºC. Os cientistas também instalaram monitores de temperatura intramuscular nos peixes e os deixaram mergulhar. Rastreando os dados por satélite, eles constataram que a temperatura do corpo do animal se mantinha sempre 5ºC mais alta que a da água, mesmo quando ele atingia águas mais profundas e mais geladas, a até 300 metros. 

Alguns grandes peixes predadores - como o atum, que vive em águas menos frias e mais superficiais - conseguem aquecer temporariamente certos músculos e órgãos durante a perseguição de uma presa. Mas os órgãos internos, incluindo os corações, esfriam rapidamente e diminuem sua atividade quando eles mergulham em profundidades mais frias, forçando-os a nadar para a superfície. O L. guttatus, ao contrário, consegue conservar o calor em todo o corpo. 


"Ele aproveita o calor gerado pelo batimento de suas nadadeiras peitorais para aquecer mais do que apenas seus músculos natatórios. Descobrimos que o peixe é equipado com um mecanismo que armazena esse calor em seu coração e cérebro". Com isso, o peixe ganha uma "vantagem competitiva", segundo o cientista, e pode operar na água gelada e profunda de uma maneira semelhante à dos predadores de alta performance, como o atum.

O grupo de cientistas começou a perceber que o L. guttatus era incomum quando o biólogo Owyn Snodgrass coletou amostras do tecido de suas brânquias. Wegner reconheceu nelas um desenho singular: os vasos sanguíneos que levam o sangue aquecido para as guelras ficam enrolados nos vasos que levam o sangue frio de volta para dentro do corpo do animal, depois de ter absorvido o oxigênio da água gelada. Com isso, o sangue quente, que está deixando o interior do corpo, ajuda a esquentar o sangue frio que está voltando da superfície respiratória das guelras, onde o oxigênio é absorvido.

"Esse desenho nunca foi visto antes nas brânquias de nenhum peixe. É uma incrível inovação desses animais, da qual eles tiram grande vantagem, usando o sangue venoso aquecido para esquentar o sangue arterial oxigenado", afirmou Wegner. "Uma espessa camada de tecido adiposo envolve as guelras, o tecido muscular e o coração, isolando-os da água fria. É assim que ele consegue armazenar dentro do corpo o calor gerado pelo batimento das nadadeiras", explicou o cientista.

Os pesquisadores da NOAA registraram que têm coletado um número maior de exemplares do L. guttatus nos últimos anos, em vistorias de pesquisa. Mas os cientistas ainda não sabem a causa. "As condições climáticas atuais podem estar favorecendo o peixe de alguma maneira, ou a população pode estar aumentado", afirmou Wegner. O peixe não é um alvo comum da pesca nos Estados Unidos, segundo Wegner. Mas sua carne é procurada por apreciadores de sashimi e tem ficado cada vez mais popular em mercados populares.

 

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