Cientistas encontram sinais de água em vidro vulcânico da Lua

Descoberta contraria a noção mais comum, de que a Lua nunca conteve quantidades significativas de água

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

09 de julho de 2008 | 14h34

A análise de contas de vidro colorido encontradas na Lua pelas missões Apollo 15 e Apollo 17, realizadas em 1971 e 1972, revelam que o interior do satélite foi rico em água até cerca de 3 bilhões de anos atrás. A descoberta, apresentada na edição desta semana da revista científica Nature, contradiz a idéia, mais comumente aceita, de que a Lua já surgiu desidratada, e oferece uma explicação para a origem dos depósitos que gelo que parecem existir em crateras localizadas nos pólos do satélite.   Radar não resolve enigma da água no pólo sul da Lua   "O que nossas descobertas indicam é de que ou a água não se perdeu por completo no grande impacto que formou a Lua, ou que ela voltou a se acumular por meio de material de meteoritos, nos primeiros 100 milhões de anos da formação do satélite", diz o principal autor do estudo, o argentino Alberto Saal, atualmente na Universidade Brown, nos EUA. Embora as amostras sejam antigas, a análise atual só foi possível graças a desenvolvimentos tecnológicos recentes.   A teoria mais aceita para a origem da Lua diz que o satélite surgiu após a colisão de um outro astro, do tamanho de Marte, com a Terra primitiva, há mais de 4 bilhões de anos. "A idéia é de que o material expelido pelo impacto formou um anel, que aos poucos se agregou para formar a Lua", explica Saal.   Até agora, predominava a hipótese de que, com o impacto, toda a água disponível para o satélite teria sido eliminada para o espaço. Mesmo a água existente na Terra poderia ter desaparecido. "Não sabemos de fato o que aconteceu, mas a água pode não ter se perdido totalmente na Terra, ou pode ter sido reposta por material de meteoritos", diz o cientista.   No trabalho publicado na Nature, Saal e colegas descrevem os resultados da análise de vidros vulcânicos, pequenas gotas transparentes, solidificadas a partir de material expelido por vulcões lunares. "A Lua teve atividade de magma de 4,4 bilhões a 2,5 bilhões de anos atrás, aproximadamente", diz o cientista. "Mas há muito pouca informação sobre a Lua; não se sabe se ela já teve um núcleo de ferro derretido, ou quando se resfriou de vez".   O estudo das contas de vidro mostrou que elas contêm sinais de água com concentração maior no núcleo e menor na superfície, o que, segundo os autores do trabalho, demonstra que a substância não foi implantada lá por material vindo do espaço, mas estava presente quando da formação do vidro.   "Podemos afirmar que a água é magmática, original da Lua, o que significa que veio das profundezas do manto lunar, quando ele derreteu", diz Saal.   Uma vez lançada à superfície lunar pelos vulcões, a água pode ter se perdido para o espaço, por conta da baixa gravidade lunar. A equipe de Saal estima que 95% da água presente originalmente no magma foi eliminada por meio de erupções. Mas parte dessa água poderia ter se congelado em crateras profundas, nos pólos do planeta.   Nos anos 90, duas sondas orbitais, Clementine e Lunar Prospector, detectaram sinais que poderiam ser de água congelada perto do pólo sul da Lua. Cientistas especularam, na época, que a água poderia ter sido depositada lá por cometas ou meteoritos. A questão ainda está em aberto, mas a Nasa tem duas missões programadas para testar a idéia - o Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO), com lançamento previsto para este ano, e o Lunar Crater Observation and Sensing Satellite (LCrOSS), para 2009.   "Verificar se há água na superfície da Lua é um passo importante rumo a uma futura base lunar tripulada", diz Saal.   A "Visão para Exploração Espacial" anunciada pelo presidente dos EUA, George W. Bush, em 2004, pede um retorno de astronautas à Lua por períodos de permanência cada vez mais prolongados, começando a partir de 2015.

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