Luis Robayo/AFP
Luis Robayo/AFP

Cientistas encontram vestígios do zika em lágrimas de camundongos

Pesquisadores descobriram que restos do código genético do vírus permanecem nos olhos de animais adultos mesmo após eliminação da infecção pelo sistema imunológico

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2016 | 14h45

SÃO PAULO - Cientistas confirmaram, com experimentos em camundongos, que o vírus zika pode ficar em regiões específicas dos olhos em adultos infectados, causando problemas como conjuntivite e uveíte, que são observados em até 15% dos pacientes.

No novo estudo, publicado nesta terça-feira, 6, na revista cientifica Cell Reports, os pesquisadores mostram que as lágrimas de camundongos adultos ainda tinham vestígios do material genético do vírus 28 dias após a infecção, mesmo depois que ele já havia sido eliminado do organismo dos animais pelo sistema imunológico.

Segundo a equipe de cientistas, liderada por pesquisadores da Universidade de Washington (Estados Unidos), a presença do RNA do vírus nas lágrimas dos animais adultos pode indicar que os olhos funcionam como um reservatório: eles acreditam que o zika continua se replicando na glândula lacrimal ou na córnea, onde fica fora do alcance das defesas naturais do sistema imune.

"Será preciso realizar mais estudos em humanos para compreender melhor as implicações da infecção por zika nos olhos, mas modelos de estudos em animais como o que utilizamos são importantes para mostrar o que é possível e para testar novas terapias", disse um dos autores do artigo, Rajendra Apte, oftalmologista e biólogo molecular da Escola de Medicina da Universidade de Washington em St. Louis.

"Estamos planejando estudos em humanos para descobrir se o vírus infeccioso (ativo) persiste na córnea ou em outros compartimentos dos olhos, porque isso teria implicações importantes para os transplantes de córnea", afirmou Apte.

Camundongos adultos, modificados geneticamente para se tornarem suscetíveis à infecção por zika, receberam sob a pele uma injeção com o vírus, a fim de simular a infecção por meio de mosquitos. 

Nenhum sinal da doença apareceu nos olhos até sete dias após a injeção, mas em seguida os animais desenvolveram conjuntivite - sintoma que já foi detectado em humanos adultos com zika - e uveíte, uma inflamação da úvea, parte do olho onde estão localizadas a retina e a íris, além do nervo óptico. A uveíte é rara em humanos infectados, mas também já foi registrada.

Os cientistas também confirmaram que 28 após a injeção os camundongos infectados continham RNA do vírus zika nas lágrimas, embora não tivessem mais a forma infecciosa do vírus circulando no organismo.

Ultrapassando a retina. O experimento confirmou que o zika é capaz de viajar até os olhos. Os pesquisadores ainda não sabem se o vírus faz esse trajeto cruzando a barreira da retina, que separa os olhos da corrente sanguínea, passando pelo nervo óptico que conecta o cérebro e os olhos.

A confirmação da infecção nos olhos, segundo os autores, levanta a hipótese de que humanos possam ser infectados pela zika por meio do contato com as lágrimas de outras pessoas infectadas. 

"Embora não tenhamos encontrado o vírus vivo nas lágrimas dos camundongos, isso não significa que elas não sejam infecciosas para humanos. Pode haver um período de tempo no qual as lágrimas estão altamente infectadas e, nesse caso, pessoas que entrassem em contato com elas poderiam ser contaminadas", disse o autor principal do estudo, Jonathan  Miner, também da Escola de Medicina da Universidade de Washington em St. Louis.

O estudo não encontrou problemas nos olhos de camundongos recém-nascidos depois da infecção por zika na gestação, embora danos oculares já tenham sido registrados em humanos. Uma das questões que permanecem sem resposta é se o vírus causa mudanças no desenvolvimento dos neurônios que levem à cegueira e outros problemas oculares sérios em crianças com infecção congênita por zika.

"Nosso estudo sugere que os olhos podem ser um reservatório para o vírus zika. Precisamos observar se as pessoas com zika têm o vírus em seus olhos e por quanto tempo ele persiste ali", disse outro dos autores, Michael Diamond, da mesma instituição.

O olho é um local imunologicamente privilegiado, segundo os cientistas, o que significa que o sistema imune é menos ativo nessa parte do organismo, para evitar danos acidentai a tecidos responsáveis pela visão no processo do corpo para combater a infecção. Consequentemente, as infecções às vezes persistem nos olhos depois de terem sido eliminadas do resto do organismo.

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