Cientistas enfrentam dilema ético na busca acelerada por vacinas para o Ebola

Normalmente são necessários anos para provar que uma nova vacina é segura e eficaz antes que ela possa ser usada em pacientes – mas com dezenas de pessoas morrendo diariamente no pior surto de Ebola da história, não há tempo para esperar.

KATE KELLAND, REUTERS

29 Setembro 2014 | 11h21

No esforço para salvar vidas, as autoridades de saúde estão determinadas a produzir vacinas dentro de meses, dispensando parte dos testes corriqueiros e levantando dúvidas éticas e questões práticas.

“Ninguém sabe ainda como vamos fazer isso. Há muitas questões difíceis e pragmáticas sobre a distribuição, e ninguém ainda tem respostas definitivas”, disse Adrian Hill, que está realizando testes de segurança em voluntários saudáveis de uma vacina experimental para o Ebola desenvolvida pela GlaxoSmithKline.

Hill, professor e diretor do Instituto Jenner na Universidade Oxford, na Grã-Bretanha, disse que, se seus resultados não mostrarem efeitos colaterais adversos, a nova droga da GSK pode ser usada nas populações afetadas do oeste da África até o final deste ano.

Mesmo se uma droga se mostrar segura, leva mais tempo para se provar que é eficaz – tempo que simplesmente não se tem, já que os casos de infecção do Ebola duplicam a cada poucas semanas e devem chegar a 20 mil até novembro, segundo uma projeção da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Entre os dilemas que os cientistas estão enfrentanto estão: deveria se dar uma vacina não comprovada a todos ou só a alguns? Ela deveria ser oferecida primeiro aos profissionais de saúde? Aos mais jovens antes dos mais velhos? Ela deveria ser usada primeiro na Libéria, onde o Ebola está se disseminando mais rápido, ou na Guiné, onde o vírus está mais perto de ser controlado? Deveríamos dizer às pessoas que podem acreditar que a vacina irá protegê-las do Ebola? Ou deveriam continuar tomando todas as medidas preventivas, como se não tivessem sido vacinadas? E nesse caso, como se saberá se a vacina funciona?

A GSK é uma de várias indústrias farmacêuticas que iniciaram ou anunciaram planos de testes com humanos de possíveis vacinas contra o Ebola. Entre elas estão Johnson & Johnson, NewLink, Inovio Pharmaceuticals e Profectus Biosciences.

A OMS declarou esperar que se possa usar, em pequena escala, as primeiras vacinas experimentais para o Ebola no oeste africano até janeiro do ano que vem, e convocou especialistas em vacinas, epidemiologistas, farmacêuticas e especialistas em ética para uma reunião nesta segunda e terça-feiras para discutir os ângulos morais e práticos do assunto.

A maioria dos especialistas entrevistados pela Reuters é a favor da ideia de se oferecer as primeiras doses para os assistentes de saúde nos locais atingidos, já sua exposição é alta. Depois, os pesquisadores poderiam comparar as taxas de infecção entre estes e aqueles nas regiões que ainda aguardam a vacina.

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