Reuters
Reuters

Cientistas fazem primeira tomografia da Terra com neutrinos

Partículas são as únicas capazes de atravessar o planeta, o que ajudará a saber mais sobre sua densidade e seu núcleo

O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2018 | 17h50

MADRI - Os neutrinos são as únicas partículas elementares conhecidas que são capazes de atravessar a Terra, uma "virtude" que permitiu que uma equipe de cientistas realizasse a primeira tomografia do planeta com essas partículas, o que ajudará a saber mais sobre sua densidade e seu núcleo.

O trabalho, publicado nesta segunda-feira, 5, na revista especializada Nature Physics, foi realizado por Andrea Donini e Sergio Palomares, pesquisadores do Instituto de Física Corpuscular (CSIC-Universidade de Valência), junto com Jordi Salvadó, atualmente no Institut de Ciències del Cosmos da Universitat de Barcelona (ICCUB), ambos na Espanha.

Os neutrinos, também conhecidos como "partículas-fantasma", são uma das partículas mais abundantes e evasivas do universo, que dificilmente interagem com a matéria.

"Para capturá-los são necessárias enormes quantidades de matéria, como o IceCube da Antártida, um experimento projetado por um consórcio internacional que utiliza um pedaço de gelo de um quilômetro cúbico para detectar neutrinos de origem cósmica", explicou Donini à agência de notícias EFE.

Em 2011, o IceCube permitiu determinar com precisão a quantidade de neutrinos atmosféricos que surgem do choque entre os raios cósmicos e a atmosfera, e que são absorvidos pela Terra.

E, como a distribuição de neutrinos a partir de um ponto da atmosfera para baixo é igual em todo o planeta, "é possível calcular os que chegam de todas as partes, o que seria o mesmo que fazer uma radiografia a partir de todos os pontos possíveis, ou como uma ressonância nuclear na qual o feixe de luz dá voltas para fazer uma reconstrução em todas as direções", detalhou o físico.

A partir desses dados, os autores do estudo mediram quantos neutrinos são produzidos na atmosfera e quantos chegam à Terra. "E os que não chegaram é porque se encontraram com matéria, com massa, e, com essa informação, fizemos um mapa de como a massa se distribui em toda a Terra", acrescentou Donini.

O estudo ajudará a entender muito melhor como se distribui a matéria no núcleo terrestre, o que é fundamental para aumentar os conhecimentos que temos sobre o interior da Terra.

"Os neutrinos atravessam tudo, oferecendo informação valiosa sobre o desconhecido núcleo da Terra", ressaltou o físico.

O núcleo terrestre tem uma parte interna sólida e outra externa que é líquida. "Quando a Terra gira sobre seu eixo, seus componentes internos também fazem o mesmo. De fato, o campo magnético terrestre é gerado pelo atrito entre o núcleo sólido e o líquido que, por terem densidades distintas, giram em velocidades diferentes", lembrou Donini.

"Conhecer como a matéria está distribuída no núcleo é importante para entender o geomagnetismo, a dinâmica do campo magnético terrestre e como ele funciona."

A ideia de utilizar neutrinos para estudar o interior do planeta surgiu há quase meio século, mas, até a implementação do IceCube, não havia nenhum instrumento capaz de detectar neutrinos de alta energia em quantidade suficiente para realizar tal experimento.

No primeiro ano de pesquisas, seus responsáveis publicaram a informação obtida para que estivesse disponível para toda a comunidade internacional, mas "restam sete anos de trabalho para ser divulgado", uma quantidade de dados que, quando forem publicados, ajudarão a aprofundar ainda mais o conhecimento sobre o interior do planeta, destacou o físico.

"Quando forem utilizados todos os dados do experimento IceCube, teremos precisões comparáveis às dos geofísicos que usam ondas de terremotos para medir a distribuição da densidade da Terra", concluiu Donini. /EFE

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.