Khao Yai
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Cientistas interpretam pela 1ª vez vocalizações do macaco gibão

Animais típicos do sudeste asiático produzem sons diferentes para diversos contextos, como presença de comida e predadores; há variações específicas para águias, serpentes e felinos

FÁBIO DE CASTRO, O ESTADO DE S. PAULO

07 Abril 2015 | 22h32

Um grupo de cientistas interpretou pela primeira vez a comunicação vocal entre macacos gibões, típicos do sudeste asiático. No estudo, publicado na revista BMC Evolutionary Biology, os autores revelam o sentido de diversos sons produzidos pelos macacos em diferentes contextos, seja para indicar locais onde há comida, para encontrar grupos de macacos vizinhos, ou para detectar predadores. Os pesquisadores identificaram até mesmo sutis variações para comunicar a presença de cada tipo de predador, como águias, serpentes e felinos, por exemplo. 

Segundo os autores, o estudo poderá ajudar a compreender a evolução da capacidade humana de falar. "Esses animais são criaturas extraordinariamente vocais e nos dão a rara oportunidade de estudar a complexa evolução da comunicação vocal em primatas não-humanos. No futuro, suas vocalizações poderão revelar muito sobre o processo que levou à comunicação vocal. Eles podem ser uma das nossas principais esperanças para rastrear a evolução da comunicação humana", disse a autora principal do estudo, Esther Clarke. 

O macaco gibão (Hylobates lar) é conhecido por vocalizações muito altas e claras, mas ele também pode produzir diversos tipos de chamados sutis, quase inaudíveis. Esses chamados já haviam sido identificados em estudos da década de 1940, mas o volume é tão baixo que eles são praticamente indistintos para o ouvido humano - o que dificultava seu registro e análise.Utilizando tecnologias modernas de gravação e análises computacionais, os pesquisadores revelaram que os chamados suaves são produzidos em resposta a eventos específicos.

Os cientistas passaram quase quatro meses seguindo grupos de gibões nas florestas do nordeste da Tailândia. Os gibões, em geral, foram seguidos a partir do primeiro encontro, pela manhã, até que eles encontrassem a árvore onde dormiriam à noite. Ao longo desse tempo, os cientistas gravaram os chamados suaves e registraram os eventos que geraram essas respostas vocais. Com base em gravações, eles extraíram mais de 450 chamados, que foram submetidos à análise computacional para encontrar ligações entre os padrões de áudio e o contexto em que eles foram gravados.

Os gibões produziram chamados para diferentes contextos, incluindo a presença de comida, a detecção de predadores e a localização de vizinhos. Foram identificados também chamados que faziam parte de "duetos" entre casais. 

Além das diferenças entre diversos contextos, a equipe também descobriu sutis variações nos chamados que distinguiam, por exemplo, entre diferentes tipos de predadores. Os cientistas investigaram respostas específicas para predadores escondidos, como leopardos, tigres, serpentes e aves de rapina como águias e a coruja bufo-real. Além das observações feitas com predadores reais, os cientistas também apresentaram aos macacos modelos falsos de predadores em poses realistas. 

Os chamados relacionados às aves de rapina são os menos audíveis, por serem menos intensos, mais curtos e com frequência mais baixa. As aves de rapina ouvem melhor na faixa de 1 a 4 hertz, enquanto os chamados dos gibões ficam abaixo do limiar de 1 hertz. Com as frequências mais baixas de todas, os chamados relacionados às aves de rapina permitem que os gibões evitem atrair a atenção do predador. Os chamados para tigres e leopardos são parecidos, sugerindo que os macacos percebem que os dois predadores pertencem à mesma classe de "grandes gatos".

Embora os gibões de ambos os sexos apresentem chamados semelhantes, os das fêmeas têm frequência mais baixa. De acordo com os autores, isso é surpreendente, já que entre mamíferos as vozes dos machos tendem a ter frequências mais baixas que as das fêmeas. As fêmeas, segundo os pesquisadores, também não produzem vocalizações ao encontrar vizinhos e frequentemente permanecem passivas, enquanto os machos em geral interagem com indivíduos da vizinhança. 

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