Jack Guez / AFP
Jack Guez / AFP

Cientistas israelenses apresentam coração impresso em 3D a partir de tecidos humanos

Feito abre as portas para a realização de transplantes no futuro; órgão tem cerca de 3 centímetros, mas ainda 'é muito básico', segundo professor

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2019 | 08h19
Atualizado 16 de abril de 2019 | 05h30

JERUSALÉM - Cientistas da Universidade de Tel-Aviv, em Israel, produziram um coração vivo que palpita a partir de tecido humano com uma impressora 3D, feito que abre as portas para a realização de transplantes no futuro. O estudo foi publicado nesta segunda-feira, 15, na revista Advanced Science.

"É a primeira vez que se produz um coração com uma impressora 3D com o tecido humano de um paciente", explicou o diretor da investigação, o professor Tal Dvir.

O coração "está completo, vivo e palpita" e foi feito com "células e biomateriais do próprio paciente. Fizemos uma pequena biópsia do tecido adiposo dele, removemos todas as células e as separamos do colágeno e outros biomateriais, as reprogramamos para que sejam células-mãe e logo as diferenciamos para que sejam células cardíacas e células de vasos sanguíneos", detalhou Dvir.

Em seguida, os biomateriais foram processados "para serem convertidos em biotinta, que permitirá imprimir com as células". O produto final, um coração de cerca de 3 centímetros, equivale ao tamanho do de um rato ou de um coelho, mas "é muito básico", destacou o professor. Para ele, "o próximo passo é amadurecer este coração de modo que possa bombear".

No momento, "as células podem se contrair, mas o coração completo não bombeia. Precisamos desenvolvê-lo mais" para conseguir um órgão que possa ser transplantado para um ser humano, afirmou Dvir. "O próximo desafio é amadurecer essas células e ajudá-las para que se comuniquem entre elas, de forma que se contraiam juntas. É preciso ensinar as células a se comportarem adequadamente. E depois teremos outro desafio, conseguir desenvolver um coração maior, com mais células. Temos que descobrir como criar células suficientes para produzir um coração humano", disse Dvir.

Ele tem a esperança que "em 10 ou 15 anos tenhamos em hospitais impressoras 3D, que forneçam tecido para os pacientes. Talvez, corações". O estudo "pavimenta o caminho até a medicina do futuro, na qual os pacientes não terão que esperar por um transplante ou tomar remédios para evitar sua rejeição. Os órgãos necessários serão impressos, totalmente personalizados para cada paciente", explicou a universidade.

O professor Dvir trabalha no Laboratório para Engenharia do Tecido e Medicina Regenerativa, na Faculdade de Ciências Vivas George S. Wise, da Universidade de Tel-Aviv, onde estuda estratégias de nanotecnologia para a engenharia do tecido cardíaco adiposo e a fabricação de tecidos híbridos, entre outros assuntos.

Coordenador do núcleo de Cardiologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Fabio de Cerqueira Lario explica que a limitação ocorre porque as células criadas ainda não se contraem de forma ordenada e organizada. “A musculatura do coração é disposta em camadas que fazem com que o coração se contraia de forma ordenada para bombear o sangue. O experimento criado ainda não é capaz disso”, ressalta.

O especialista explica que a criação da estrutura pelos cientistas israelenses é “um feito extraordinário” porque é a primeira vez que a ciência consegue reproduzir em modelo 3D o órgão vascularizado. “Até então, só o tecido muscular havia sido reproduzido. Agora, montaram também os grandes vasos”, diz. 

USP também desenvolve experimento

Não é só em Israel que cientistas estão apostando na impressão 3D para a produção de tecidos vivos com base em células humanas. Um grupo de pesquisadores do Instituto do Coração (InCor), vinculado ao Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), também trabalha em experimentos similares ao de Israel na tentativa de, no futuro, criar um coração vivo para pacientes que necessitem de transplante.

“Aqui no Brasil começamos esses estudos com a criação de vasos sanguíneos artificiais”, conta Luiz Felipe Moreira, diretor do laboratório de órgãos e tecidos do Incor e professor associado de cirurgia cardiovascular da FMUSP. Para o feito, os brasileiros usam técnica similar à dos israelenses: removem células adiposas de pacientes para processá-las e transformá-las em células endoteliais, ou seja, que formam vasos sanguíneos. Com o cultivo dessas células, chegam à produção da biotinta, usada na impressão dos tecidos no equipamento 3D. Para isso, eles precisam utilizar células pluripotentes, ou seja, que embora vindas do tecido adiposo possam se transformar em outros tipos de células, como as cardíacas e vasculares.

As pesquisas brasileiras foram iniciadas em 2017 e são feitas em parceria com a Universidade de Groningen, da Holanda. “Um dos objetivos é criar um tecido muscular contrátil que reproduza um músculo cardíaco. Não temos condições de definir um prazo, mas a expectativa para o futuro é talvez de criar um coração inteiro”, ressalta Moreira.  / AFP e EFE, COLABOROU FABIANA CAMBRICOLI

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