Cientistas no quintal

'A China tem pressa. E tem fome. Por isso, criou os quintais de ciência e tecnologia. Os resultados são surpreendentes'

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2016 | 03h00

A China tem pressa. E tem fome. Por isso, criou os quintais de ciência e tecnologia. Os resultados são surpreendentes.

Esses quintais de ciência e tecnologia (QCT) têm o objetivo de resolver o problema da produtividade agrícola. É fato que a população do planeta ainda vai dobrar antes de estabilizar, por volta de 2050. E a quantidade de alimento produzida terá de aumentar. Todos concordam que não é viável para o bem-estar ecológico do planeta simplesmente aumentar a área da superfície da Terra dedicada à produção de alimento. A solução mais razoável é produzir mais na área já ocupada. Mas para isso é preciso mais tecnologia.

Quando falamos em aumentar a quantidade de tecnologia usada na produção de alimentos sempre vêm à cabeça novas variedades de plantas, agroquímicos mais poderosos, máquinas, e assim por diante. Isso vale para áreas que já usam as tecnologias mais modernas e extraem da terra o máximo possível com a tecnologia atual. Mas a verdade é que grande parte das áreas utilizadas para a agricultura ao redor do mundo não usa essas tecnologias e produz muito menos a um custo muito maior. Ou seja, são ineficientes.

Geralmente isso acontece em propriedades pequenas, cultivadas por uma família ou pelos habitantes de pequenas vilas. É a realidade de grande parte da China, da Indonésia e mesmo do Brasil.

A diferença entre o que uma região tem potencial de produzir, medido pela produtividade obtida em estações experimentais, e a produtividade obtida pelos agricultores é o que os cientistas chamam de “yield gap”. É a quantidade de alimentos que poderia ser produzida a mais se os agricultores adotassem tecnologias já comprovadas em estações experimentais. Esse gap é grande. Em muitas regiões, é de mais de 50%. Estimativas indicam que caso esse “yield gap” fosse fechado, ou seja, se toda a agricultura produzisse o máximo possível com as tecnologias disponíveis, a produção mundial de alimentos poderia ser dobrada.

A adoção dessas tecnologias pelos agricultores é um problema clássico de transferência de tecnologia das universidades para os agricultores. No fundo, é um problema educacional. Foi exatamente para resolver esse problema que os chineses adotaram, em 2009, os QCT.

Esse programa herda um pouco da Revolução Cultural. Os cientistas foram morar fisicamente nas quase cem vilas onde os QCT foram implementados, apesar de continuarem a trabalhar nas universidades. Nas vilas, os cientistas identificaram os agricultores com potencial de liderança e, nas suas terras, implementaram experimentos que testavam individualmente cada variável que poderia ser modificada. Assim que os resultados eram obtidos, iam sendo discutidos com a comunidade, eram feitos os ajustes necessários e, no ano seguinte, adotados. Muito foi descoberto nesse processo, lugares usavam agroquímicos demais, outros de menos, outros usavam errado. Essa diversidade de práticas falhas era repassada de geração para geração. Isso foi aos poucos sendo modificado.

Os detalhes de como funcionam esses QCT e os resultados obtidos estão descritos no artigo citado abaixo. Basta dizer que em 5 anos os fazendeiros líderes aumentaram a produtividade de suas terras de 69% para impressionantes 97%. E a produtividade geral dessas comunidades aumentou de 63% para 79% do máximo passível de ser obtido com as tecnologias.

Esse exemplo mostra que a pressa da China produz resultados. Enquanto na maioria dos países os cientistas passam seu tempo produzindo conhecimento nas universidades e esperando que esse conhecimento chegue à sociedade por meio do que ensinam para seus alunos, a China cortou um passo nesse processo, colocando os cientistas diretamente em contato com os usuários da tecnologia.

Isso aumenta a velocidade da migração das tecnologias da universidade para o campo e a velocidade com que os cientistas ficam sabendo dos problemas que surgem no campo. A pressa faz bem. Que tal colocar nossos teóricos da educação nas salas de aula?

MAIS INFORMAÇÕES: CLOSING YIELD GAPS IN CHINA BY EMPOWERING SMALLHOLDER FARMERS. NATURE VOL. 537 PAG. 671 2016

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

Mais conteúdo sobre:
Fernando Reinach China Indonésia Brasil

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.