Drago Prvulovic/TT News Agency/AFP
Drago Prvulovic/TT News Agency/AFP

Cientistas noruegueses e americano ganham Nobel de Medicina 2014

Pesquisa mostra como o cérebro identifica onde está o indivíduo e como é capaz de orientar a movimentação de um lugar para outro

Fabio de Castro, O Estado de S. Paulo

06 Outubro 2014 | 07h19

Atualizada às 22h06

O Prêmio Nobel de Medicina de 2014 foi concedido nesta segunda-feira, 6, aos pesquisadores John O’Keefe, May-Britt Moser e Edvard Moser, pela descoberta dos conjuntos de células nervosas que formam no cérebro humano um sistema de posicionamento espacial - espécie de “GPS interno” - que permite que uma pessoa se oriente no espaço. 

Ao demonstrar como o cérebro identifica onde o indivíduo está e como ele é capaz de orientar a movimentação de um lugar para outro, as descobertas poderão ajudar a explicar por que pessoas com Alzheimer muitas vezes não conseguem reconhecer seu entorno. 

Metade do prêmio concedido pelo Instituto Karolinska, em Estocolmo, de 8 milhões de coroas suecas (US$ 1,1 milhão), ficará com o neurocientista anglo-americano O’Keefe. O restante vai para o casal de cientistas noruegueses May-Britt e Edvard Moser.

O’Keefe, pesquisador do University College London, iniciou suas pesquisas na década de 1960, quando se interessou pelo problema do controle do cérebro sobre o comportamento. Em 1971, descobriu o primeiro componente celular do sistema de posicionamento. 

Ao registrar sinais de células nervosas no hipocampo de ratos, que se movimentavam livremente em uma sala, ele encontrou um tipo de neurônio que era ativado quando o animal se encontrava em determinado local no ambiente. Outras células nervosas eram ativadas quando os animais estavam em lugares diferentes. O cientista concluiu que essas “células de localização” eram capazes de construir um mapa interno do ambiente. 

Em experimentos posteriores, O’Keefe mostrou que essas células podiam fornecer uma base celular para processos ligados à memória, nos quais a lembrança de um ambiente pode ser armazenada em combinações específicas de “células de localização".

Outro estudo. Mais tarde, em 2005, May-Britt e Edvard, da Universidade de Ciência e Tecnologia de Trondheim, na Noruega, descobriram o outro componente do “GPS cerebral”: eles identificaram um outro tipo de células nervosas situadas no córtex entorrinal - estrutura próxima do hipocampo - batizadas de “células de rede”. Elas eram ativadas quando um rato passava em determinadas posições. Juntas, essas posições formavam uma rede hexagonal e cada “célula de rede” reagia formando um padrão espacial único. 

Assim, as “células de rede” são capazes de criar um sistema de coordenadas, permitindo que os indivíduos se posicionem de forma precisa e encontrem caminhos em determinado ambiente. As “células de rede” funcionam como uma carta náutica, como se traçassem linhas de longitude e latitude, ajudando o cérebro a avaliar distâncias e mapear a movimentação. 

O casal concluiu que as “células de rede” atuam como um “sistema de coordenação métrica espacial” e fazem com que o córtex entorrinal trabalhe como um centro computacional para representar o espaço. 

Mais tarde, as pesquisas do casal Moser mostraram como a sobreposição das “células de localização” (descobertas por O’Keefe) e das “células de rede” tornavam possível o posicionamento e a navegação. Os dois tipos de células são encontradas nos cérebros de diversas espécies de mamíferos, incluindo os humanos.

As descobertas abriram caminho para avanços na compreensão dos mecanismos envolvidos na noção de espaço. De acordo com o Instituto Karolinska, elas resolveram problemas que intrigaram cientistas e filósofos por séculos: como o cérebro cria um mapa do espaço ao redor da pessoa e como ela pode “navegar” e encontrar caminhos em ambientes complexos. 

O senso de localização dá uma percepção ao indivíduo de sua posição no ambiente. Durante a “navegação”, esse senso é interligado a uma percepção de distância, baseada no movimento e no conhecimento de posições anteriores.

O Instituto Karolinska afirmou que, ao ser informado nesta segunda que havia sido agraciado, O’Keefe declarou que faria uma “celebração silenciosa” e que o dinheiro do prêmio “deveria ser usado para o bem comum”.

Nascido em 1939, em Nova York, O’Keefe cursou doutorado em Psicologia Fisiológica na Universidade McGill, no Canadá, e, em 1967, foi para a Inglaterra, onde é professor de Neurociência Cognitiva. Os noruegueses May-Britt Moser e Evard Moser nasceram, respectivamente, em Fosnavåg, em 1963, e em Ålesund, em 1962. Ambos são professores de Neurociências em Trondheim.

Nesta terça-feira será conhecido o ganhador do Nobel de Física e na quarta, o de Química.

Mais conteúdo sobre:
Medicina Prêmio Nobel

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.