Cientistas pedem fundo científico para desenvolver África

Um grupo de cientistas e especialistas em África pediu a criação de um fundo científico para o continente, no qual os projetos seriam "administrados o máximo possível por africanos, e não pelos países doadores", com o objetivo de desenvolver a região.A idéia foi apresentada na edição de quinta-feira da revista especializada Nature. A publicação dedica boa parte de seu conteúdo desta semana à África, aproveitando a proximidade da reunião do G-8 (os sete países mais ricos e a Rússia) na Escócia e a série de shows do Live 8, que prometem intensificar as discussões sobre o combate à pobreza no mundo.O grupo de dez especialistas de diferentes países que escreve na revista é unânime em argumentar que de nada adianta os países da África receberem ajuda financeira se a ciência e a tecnologia não receberem investimento direto.Para eles, o investimento é fundamental para combater problemas como doenças infecciosas, mudanças climáticas e falhas no sistema de educação e saneamento básico."Apesar de receber ajuda para o desenvolvimento nos últimos 30 anos, a África não conseguiu estabelecer uma rede de pesquisa científica local e eficaz. A situação não mudará se não tivermos centros de pesquisa com profissionais capacitados atuando no continente", argumenta Kevin Marsh, um epidemiologista do Quênia convidado a escrever na revista.TrocaA proposta do fundo científico foi idéia originalmente do sul-africano John Mugabe, conselheiro da Nova Parceria para o Desenvolvimento Africano (Nepad), uma iniciativa de troca de tecnologia entre os países africanos."Queremos ver o G-8 comprometido com a criação desse fundo que estará disponível em bases flexíveis para ser usado por todos os países que desejem criar instituições de pesquisa localmente", afirma Mugabe.Para Marsh, US$ 3 bilhões nos próximos dez anos seriam suficientes para dar início ao projeto."Desse valor, US$ 900 milhões seriam necessários para criar uma rede que ligue esses centros para que os cientistas possam trocar informações", acredita.Necessidades semelhantesA Nature lembra que todos os países africanos têm necessidades semelhantes. Aids, malária e tuberculose, por exemplo, são endêmicas em quase todo o continente. assim como a falta de saneamento básico e ausência de escolas e universidades para formar quem possa lidar com esses problemas.Vários especialistas argumentam, por exemplo, que mais dinheiro deve ser investido em computação, dando aos africanos mais acesso à internet."A pobreza também é a maior causa de degradação do meio ambiente, levando as pessoas a viver de maneira insustentável. Um exemplo é o desmatamento: as pessoas não cortam árvores para se divertirem: é uma questão de sobrevivência", argumenta Anthony Nyong, da Universidade de Jos, na Nigéria.DoençasPascoal Mocumbi, ex-primeiro ministro de Moçambique, lembra o problema da Aids e da malária, que devastam a África subsaariana."Em meu país uma em cada quatro crianças morre antes de completar 5 anos e a malária é a principal causa. Precisamos de centros de pesquisa, precisamos de uma vacina, precisamos de remédios."Segundo Mocumbi, aliviar a dívida dos países africanos é uma ajuda mas "uma boa parte desse dinheiro deve ir para ciência tecnologia e saúde para fazermos a diferença"."Se o dinheiro arrecado internacionalmente não for usado para combater os problemas no nível interno, dos países, então teremos apenas mais congressos, mais reuniões e pouco progresso", afirma.Outros pedidos são mais investimentos em formas de energia mais limpas e maiores investimentos em melhorias na agricultura, com o uso de biotecnologia.

Agencia Estado,

30 de junho de 2005 | 12h23

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