Maria Gloria Dominguez-Bello/Rutgers University-New Brunswick
Maria Gloria Dominguez-Bello/Rutgers University-New Brunswick

Cientistas propõem criar 'arca de noé' de micróbios que protegem a saúde

Seleção de germes seria coletada ao redor do mundo em comunidades nativas para proteger parte da microbiota que vem desaparecendo

Roberta Jansen, O Estado de S. Paulo

04 Outubro 2018 | 16h00

RIO - Um grupo de cientistas internacionais está propondo a criação de uma espécie de “arca de noé” de micróbios cujo objetivo é proteger a saúde da Humanidade a longo prazo. Essa seleção de germes benéficos para o homem seria coletada ao redor do mundo, especificamente em populações que não foram expostas a antibióticos, comidas processadas e outras ameaças da sociedade moderna – que vêm contribuindo para uma perda significativa de diversidade microbiana e, consequentemente, para o aumento de várias doenças.

A microbiota humana  é formada por trilhões de micróbios que habitam nosso corpo e nosso organismo, contribuindo para a (boa) saúde das mais diversas maneiras. Os pesquisadores, que divulgaram sua proposta na edição desta quinta-feira, 4, da revista Science, contam que se inspiraram no Cofre Global de Svalbard, na Noruega, a maior coleção de sementes do mundo, criada para preservar a diversidade da agricultura em caso de uma catástrofe natural ou mesmo produzida pelo homem.

“Estamos enfrentando uma crescente crise global da saúde, que demanda a captura e a preservação da diversidade da microbiota humana enquanto ela ainda existe”, explicou a principal autora do manifesto, Maria Gloria Dominguez-Bello, dos departamentos de Bioquímica e Microbiologia e também de Antropologia da Universidade de Rutgers, em seu artigo. “Esses micróbios evoluíram com os humanos ao longo de milhares de anos. Eles nos ajudam a digerir a comida, fortalecem nosso sistema imunológico, nos protegem contra germes invasores. Ao longo das últimas gerações, vemos uma perda significativa dessa diversidade microbiana relacionada ao aumento global de problemas imunológicos e outras desordens.”

Dominguez-Bello e seus co-autores – Rob Knight, da Universidade da Califórinia; Jack Gilbert, da Universidade de Chicago, e Martin Blaser, da Universidade de Nova York – defendem a ideia de que um dia será possível prevenir doenças com a reintrodução de alguns desses micróbios perdidos. Mas isso só poderá ser feito se os pesquisadores conseguirem coletar esses germes “do bem” em populações que vivem isoladas em áreas remotas do planeta e que, por isso, mantêm sua microbiota original, sem os efeitos nocivos da vida nas grandes metrópoles.

Pessoas que vivem em sociedades urbanizadas já perderam uma parte substancial da diversidade da microbiota. A diversidade dos germes da flora intestinal da maioria dos americanos, por exemplo, está reduzida à metade quando comparada à de populações caçadoras-coletoras de áreas remotas da Amazônia. Um grande esforço internacional seria necessário para coletar e armazenar os micróbios em um repositório global. As sementes de Svalbard, por exemplo, ficam dentro de um cofre localizado no arquipélago norueguês, sob grandes camadas de gelo.

Desde o início do século XX, explicam os especialistas, doenças e distúrbios como obesidade, asma, alergias e autismo vêm aumentando significativamente – inicialmente nos países ricos e, mais recentemente, nos países em desenvolvimento. Uma crescente coleção de indícios científicos relacionam os problemas à redução da diversidade da microbiota ainda na infância e as consequentes anomalias metabólicas como um dos principais fatores. Os cientistas lembram ainda que o custo de tratamento apenas para obesidade e diabetes nos Estados Unidos já ultrapassou US$ 1 trilhão ao ano, o que leva os autores a comparar a perda global de micróbios ao aquecimento global em termos de risco para o futuro da Humanidade.

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