Stefano G. DANIELE and Zvonimir VRSELJA / NATURE PUBLISHING GROUP / AFP
Stefano G. DANIELE and Zvonimir VRSELJA / NATURE PUBLISHING GROUP / AFP

Cientistas reativam células de cérebros de porcos mortos

Células cerebrais retomaram atividade metabólica ao receberem bombeamento de fluido em estudo experimental; tecnologia poderá abrir caminho para novos tratamentos para derrames e doenças como Alzheimer

Gina Kolata, The New York Times

17 de abril de 2019 | 17h48

Em um estudo que levanta grandes questões sobre a linha entre a vida e a morte, pesquisadores restauraram parte da atividade celular de cérebros removidos de porcos abatidos. Os cérebros não retomaram sinais de consciência: não havia sinais indicando sinalização elétrica coordenada, necessária para funções primordiais como inteligência e atenção.

Mas, em um estudo experimental, vasos sanguíneos nos cérebros começaram a funcionar, fluindo com um substituto para o sangue, e determinadas células cerebrais retomaram atividade metabólica, respondendo até a drogas. Quando os pesquisadores testaram partes do tecido cerebral, eles descobriram atividade elétrica em alguns neurônios.

O trabalho é considerado muito preliminar e não tem implicações imediatas no tratamento de lesões cerebrais em humanos. Mas a ideia de que partes do cérebro podem ser recuperadas após a morte, como convencionalmente definida, contradiz tudo que a ciência médica acredita sobre o órgão e apresenta enigmas metafísicos.

“Nós tínhamos definições claras entre 'isso está vivo' e 'isso está morto'", disse Nita A. Farahany, especialista em Bioética e professora de Direito na Universidade de Duke. “Como encaramos essa nova categoria de 'parcialmente vivo'? Não pensávamos que poderia existir.”

Por décadas, médicos e parentes em luto imaginaram se seria possível restaurar funções para uma pessoa que sofreu lesões cerebrais profundas causadas por um derrame ou um ataque cardíaco. Estavam esses cérebros realmente além da salvação?

Uma nova pesquisa confirma quão pouco conhecemos sobre cérebros lesionados e a chamada morte cerebral. Especialistas em Bioética como Farahany ficaram chocados e intrigados com os achados publicados nesta quarta-feira, 17, na revista Nature.

“Isso é gigantesco”, disse Jonathan Moreno, especialista em Bioética na Universidade da Pennsylvania. “Se há uma questão que merece uma grande deliberação pública quanto a ética na ciência e na medicina, aqui está ela.”

Até agora, assumiu-se que a atividade cerebral caía rapidamente quando o suprimento sanguíneo era cortado. Células se deterioram e conexões entre os neurônios desmoronam. Cientistas acreditavam que essas mudanças eram irreversíveis a menos que o fluxo sanguíneo fosse rapidamente restaurado.

Pesquisadores da Universidade de Yale usaram cabeças de 32 porcos que haviam sido mortos pela sua carne. Os cientistas serraram os crânios e removeram os cérebros. Quando o experimento se iniciou, os cérebros estavam sem sangue e em temperatura ambiente por quatro horas.

A equipe desenvolveu um sistema chamado BrainEx, que bombeia uma solução experimental para dentro do cérebro intacto. Os cientistas esperam que a tecnologia possa ajudar a indicar um caminho para um novo tratamento para derrames, lesões cerebrais traumáticas e doenças como Alzheimer.

Os cientistas bombearam a solução para o cérebro dos porcos por seis horas. Isso levou oxigênio para o tecido e continha químicos que auxiliaram os cientistas a mensurar seu fluxo com ultrassom.

A solução também continha químicos voltados para bloquear sinais nervosos. Os cientistas apontaram que as células cerebrais poderiam estar melhor preservadas - e seus metabolismos poderiam ser mais facilmente reiniciados - se elas não estivessem ativas.

Mas os pesquisadores também não queriam correr o risco de que os cérebros pudesse retomar a consciência, ainda que fosse improvável. Se visse atividade elétrica que sugerisse consciência, eles planejavam aplicar drogas anestésicas e parar imediatamente o processo.

Os cientistas também analisaram cérebros que não receberam a infusão e e aqueles que não receberam as substâncias verdadeiras. Cérebros dos dois grupos não apresentaram sinais de atividade e suas células se deterioraram. O Instituto Nacional de Saúde (NIH, na sigla em inglês), que apoiou a pesquisa, convocou uma reunião para discutir o significado dos achados.

“Não é um cérebro vivo, mas é um cérebro com atividade celular”, disse dr. Nenad Sestan, neurocientista da Universidade de Yale, que liderou a pesquisa. “Queríamos testar se células num cérebro morto e intacto poderia ter algumas funções restauradas.”

Algumas pessoas que pareciam mortas após longas exposições ao frio foram ressuscitadas e seus cérebros continuaram a funcionar, ele destacou. Pacientes vítimas de derrame que ficaram com cerca de 16 horas com um coágulo bloqueando o sangue para partes do cérebro retomaram funções cerebrais uma vez que os médicos removeram o coágulo.

“Isso é um avanço real”, disse Andrea Beckel-Mitchener, que lidera pesquisas cerebrais no NIH. “Isso nunca foi feito antes num cérebro de um mamífero intacto.”

As questões éticas levantadas pela pesquisa são quase sem precedentes. Entre elas, há questões sobre o bem estar dos animais em laboratórios. “Isso é muito novo”, disse Stephen R. Latham, especialista em Bioética em Yale. “Isso não é pesquisa animal. O cérebro foi obtido pelos pesquisadores a partir de animais mortos.” Como, ele pergunta, os especialistas decidirão se o sofrimento causado pela pesquisa é justificado pelas suas metas?

Ainda que não tenha havido atividade elétrica nos cérebros, é possível restaurá-lo, os especialistas apontam. Não é possível saber o que teria acontecido se a solução não contivesse bloqueadores nervosos.

Quando se tem um cérebro com atividade celular ativa, quais são as proteções apropriadas, ela pergunta. O tratamento é o mesmo dado a um animal vivo? Você não pode tratá-lo como um animail morto, Farahany diz. “O que significa conversar sobre consciência de um porco? O que estamos procurando?”, questiona Moreno.

O trabalho também pode ter implicações sobre as doações de órgãos. Na França e na Espanha, se uma pessoa sofre um ataque cardíaco e tem o cérebro privado de circulação sanguínea, os funcionários de emergência tentam por cerca de 30 minutos retomarem a atividade cardíaca, disse Stuart Youngner, especialista em bioética na Universidade Case Western Reserve, coautor de um editorial que acompanhou a divulgação do estudo.

Se eles falharem, os profissionais da emergência preservam os órgãos com uma máquina que bombeia sangue pelo corpo. Eles também inserem um balão para prevenir que o sangue chegue ao cérebro. Dessa forma, a pessoa pode se tornar uma doadora de órgãos porque o cérebro está morto. "Mas se algo como o BrainEx estivesse disponível, por que não se faria isso ao invés de tentar preservar só os órgãos?”, questiona Youngner.

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