Cientistas registram ação de neurônios durante lembrança

Experiência revelou não apenas onde uma experiência recordada é registrada, mas como o cérebro a recria

Benedict Carey, do The New York Times,

04 de setembro de 2008 | 19h45

Cientistas registraram, pela primeira vez, células nervosas individuais no ato de evocar uma memória espontânea, revelando não apenas onde uma experiência recordada é registrada, mas também, em parte, como o cérebro consegue recriá-la.  Os registros, tirados de cérebros de pessoas com epilepsia sendo preparadas para cirurgia, demonstram que essas memórias espontâneas residem em alguns dos mesmos neurônios que se acionaram com maior intensidade quando o evento lembrado aconteceu pela primeira vez. Pesquisadores teorizaram esse acontecimento por muito tempo, mas até o momento não havia nada além de evidências indiretas.  O novo estudo, dizem os especialistas, fez tudo a não ser encerrar a questão: para o cérebro, lembrar é muito parecido com fazer (pelo menos a curto prazo; a pesquisa não fala nada sobre memórias mais distantes). O experimento, relatado nesta sexta-feira, 4, na revista Science, deve abrir um novo caminho na investigação de Alzheimer e outras formas de demência, disseram alguns cientistas, assim como ajudar a explicar como algumas memórias aparentemente "saem do nada". Os pesquisadores conseguiram inclusive identificar memórias específicas um segundo ou dois depois das pessoas reportarem sua ocorrência.  "Isso é o que eu chamaria de um achado funcional", disse Michael J. Kahana, professor de psicologia na Universidade da Pennsylvania. "Eu não posso pensar em nenhum estudo recente que seja comparável a esse. É realmente uma peça central no quebra-cabeça da memória e um passo importante para entendermos exatamente o que acontece nessa viagem no tempo mental." O novo estudo foi além das pesquisas mais recentes de memória, não se concentrando em lembranças de símbolos específicos, mas de lembranças livres - o que quer que viesse à mente das pessoas quando, no caso, pedia-se para que se lembrassem de uma série de pequenos filmes que tinham acabado de ver. Essa habilidade de reconstituir com detalhes uma experiência passada geralmente se deteriora rapidamente em pessoas com Alzheimer e outras formas de demência, e é fundamental para a chamada memória episódica: o catálogo de vinhetas que, juntas, formam nosso passado que lembramos.  No estudo, uma equipe de pesquisadores israelenses e norte-americanos posicionou pequenos eletrodos nos cérebros de 13 pessoas com epilepsia severa como um procedimento padrão nesses casos, permitindo que médicos determinassem a localização de pequenas "tempestades" de atividade cerebral que causa as convulsões nos epilépticos.  Os pacientes assistiram a uma série de filmes de 5 a 10 segundos de alguns programas de TV consagrados, animais e paisagens. Os pesquisadores gravaram a atividade de cerca de 100 neurônios por pessoa enquanto assistiam às séries de vídeos repetidos; os neurônios gravados estavam concentrados ao redor do hipocampo, tecido conhecido por formar novas memórias.  Em cada indivíduo, os pesquisadores identificaram células avulsas que se tornaram altamente ativas durante alguns vídeos e pouco ativas durante outros. Cerca de metade das células responderam com atividade a pelo menos um vídeo, e responderam de maneira fraca a outros.  Após distrair os pacientes por alguns minutos, os pesquisadores então pediram-lhes que pensassem nos vídeos por um minuto e dissessem o que "viesse à mente". Os pacientes lembraram praticamente todos os vídeos. E, quando lembravam de um em especial, as mesmas células que tinham estado ativas durante a exibição voltavam a ficar ativas. Na realidade, as células ficaram ativas um segundo ou dois antes de os pacientes reportarem suas memórias. O neurônio avulso que trabalhou mais ativamente durante os filmes não estava agindo sozinho, disseram os pesquisadores. Ele fazia parte, como qualquer célula desse tipo, de um circuito respondendo aos vídeos, incluindo, talvez, milhões de células.  As gravações de uma células não podem capturar a ação completa envolvida na memória, que pode ser bem distribuída pela área do hipocampo, dizem os especialistas. E, conforme o tempo passa, memórias são consolidadas, submergidas e, muitas vezes, esquecidas completamente. O novo estudo, embora não tenha estudado o processo a longo prazo, sugere que pelo menos alguns dos neurônios que ficam ativos quando uma memória nos vem à mente são aqueles que ficaram mais ativos durante a ocorrência do evento.

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