Cientistas temem revés na Antártida

Pesquisadores brasileiros nunca tiveram tantos recursos para estudar o continente, mas previsão de investimento para 2012 é ruim; de acordo com o coordenador de um instituto governamental, compreender a influência da região sobre o País é importante

Afra Balazina, enviada especial a Natal, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2010 | 00h00

Futuro. Programa deve receber apenas R$ 1,2 milhão em 2012        

 

 

 

 

Nos últimos 28 anos, os cientistas brasileiros nunca tiveram tantos recursos para fazer pesquisas na Antártida. Mas eles não têm tempo para comemorar: estão preocupados com o futuro de seu trabalho no continente gelado.

O glaciologista Jefferson Cardia Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que a situação só e boa até o próximo ano. "Ao longo dos últimos três anos, foram alocados cerca de R$ 35 milhões para o Programa Antártico Brasileiro (Proantar). E estamos tranquilos até 2011. Agora, no plano plurianual, o que está previsto é somente R$ 1,2 milhão para 2012", explica.

O receio dos pesquisadores do Proantar é que voltem a sofrer com o conhecido problema de irregularidade dos programas científicos. "Até 2002, a situação era muito inconstante. A partir de então, por meio de uma ação do Ministério do Meio Ambiente, começaram a vir recursos", afirma. Antes disso, segundo ele, o País "fazia alguma pesquisa, muitas vezes com o esforço de cientistas abnegados, mas sem dinheiro". Simões recorda que, por volta de 2000, o Proantar chegou a receber somente R$ 360 mil. E diz esperar que o próximo governo não permita um retrocesso.

O avanço das pesquisas também ocorreu com a criação, em 2008, de dois Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) com foco na Antártida. Um deles, o da Criosfera - a superfície terrestre coberta por gelo ou neve - é coordenado por Simões. O outro se chama Pesquisa Ambiental Antártica.

O primeiro congrega cerca de 150 pessoas. "São 50 doutores. Muitos são daqui, mas temos colaboração também do exterior, numa proporção de 15% a 20%. Não é muito, é mais para reforçar as colaborações", diz.

Relevância. De acordo com Simões, quando existem recursos, há um envolvimento maior da comunidade científica. "O cientista começa a se interessar e se motivar a montar seu laboratório. E pode se dedicar em grande parte do tempo a isso", explica.

Para quem pergunta qual é a relevância de o País pesquisar em outro continente, ele tem a resposta pronta: "Os processos que ocorrem lá no Ártico e na Sibéria nos afetam. Aquele tsunami que aconteceu na Indonésia nos afeta. Assim como a Antártida. O brasileiro precisa parar de pensar que é um País isolado, tropical, abençoado por Deus em termos climáticos. Não é."

Segundo ele, ao longo dos anos houve uma fase de projetos individuais no continente gelado e, atualmente, chegou-se a uma fase de identificar grandes temas para estudar. E a principal pergunta que os cientistas têm de responder é qual a influência do continente antártico sobre o País.

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