Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

Cientistas tentam lançar robô até a África

Veículo submarino autônomo coletará dados sobre o Atlântico Sul; 1º lançamento do robô RU 29 teve falhas técnicas

Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

20 Julho 2014 | 02h03

A primeira tentativa de enviar um veículo autônomo de pesquisa oceânica em uma travessia do Atlântico Sul falhou na semana passada, por causa de problemas técnicos. O robô RU 29, com o formato de um grande torpedo amarelo, foi lançado ao mar no dia 11, a cerca de 200 quilômetros da costa de Santos, com destino à Cidade do Cabo, na África do Sul. Pouco após o lançamento, porém, ele acusou problemas e precisou ser recuperado da água.

A "operação resgate" foi realizada na quinta-feira pelo navio Alpha Delphini, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), parceiro da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos, para a execução do projeto, cujo objetivo é coletar dados científicos sobre a estrutura e o funcionamento do Atlântico Sul - o oceano menos estudado do planeta. O Estado acompanhou os cientistas em ambas as expedições, de lançamento e recuperação.

O robô, de 72 quilos e 2,2 metros de comprimento, é um veículo autônomo submarino do tipo "glider" (planador, em inglês), tecnologia que vem crescendo nos últimos anos como uma alternativa robótica ao uso de navios para coleta de dados oceanográficos. O aparelho é controlado via satélite e pode ser equipado com sensores para registrar uma variedade de parâmetros, como temperatura, salinidade, concentração de clorofila e correntes. Funciona como uma estação meteorológica móvel, para monitorar o oceano em vez da atmosfera.

"Estamos vivenciando os primórdios da observação robótica dos oceanos", disse o pesquisador líder do projeto, Scott Glenn, do Instituto de Ciências Marinhas e Costeiras da Rutgers, que veio ao Brasil chefiar o lançamento do aparelho.

A missão do RU 29 (o 29.º glider da Rutgers University) é dar uma volta completa na bacia oceânica do Atlântico Sul, percorrendo uma rota de aproximadamente 15 mil quilômetros, dividida em três pernadas. A primeira delas, iniciada em janeiro de 2013, foi da Cidade do Cabo até Ascensão, uma ilha isolada no meio do Atlântico. A segunda, iniciada em novembro de 2013, foi de lá até Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, onde o robô foi resgatado em 18 de maio.

A terceira e mais longa pernada, de 6,5 mil quilômetros, será a travessia sem escalas de volta à Cidade do Cabo, prevista para durar entre 9 e 12 meses. Durante todo esse tempo, o glider "voará" solitário pelas profundezas do Atlântico Sul, avançando lentamente rumo à África por meio de mergulhos sucessivos, de até 1 mil metros de profundidade, e subindo à superfície de tempos em tempos para transmitir dados.

Riscos. Será uma travessia pioneira; a segunda mais longa já realizada por um glider. E os perigos ao longo do caminho são muitos, incluindo ataques de tubarão (já aconteceu), colisão com navios (idem) e captura em redes de pesca, além dos eventuais problemas tecnológicos, corrosão, etc.

Tanto que as dificuldades não demoraram a aparecer. Duas horas depois de ser lançado, no dia 11, o glider "desapareceu" - parou de se comunicar com os cientistas. O mar estava revolto e sem uma localização via satélite não fazia sentido voltar para procurar o aparelho. Foram dez horas de angústia no barco, aguardando por um sinal de vida do robô.

À 1h45 do dia seguinte, alívio: o glider ligou para casa. Havia um erro de programação no sistema, que o impedira de fazer as ligações nas horas certas. Fora isso, ele estava bem, e já havia percorrido 10 km rumo à África.

O "bug" foi corrigido via satélite e o glider retomou a missão. Mas não demorou muito, outro problema apareceu: um alerta de vazamento, como se água estivesse penetrando pelo casco do robô. Os pesquisadores, então, ordenaram o glider a dar meia volta, e saíram com o Alpha Delphini para resgatá-lo; o que ocorreu às 8h do dia 17, a 115 km do Porto de Santos.

"Isso é o dia a dia da oceanografia. Nunca é fácil trabalhar no mar", disse o pesquisador Marcelo Dottori, do IO-USP, que chefiou o resgate e está desenvolvendo o primeiro programa de gliders no Brasil. O RU 29 passará agora por uma inspeção detalhada, e um novo lançamento deverá ocorrer nas próximas semanas.

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