Seth Wenig/AP
Seth Wenig/AP

Cientistas testam drogas psicodélicas contra ansiedade e trauma

Pacientes são acompanhados para evitar efeitos adversos; estudo encontra resistência

Associated Press

23 Abril 2010 | 18h40

Nicky Edlich, de 67 anos, engoliu uma grande pílula branca e viu o mundo se transformar em um domo de joias. O domo então se abriu, dando entrada a "esta luminescência incrível, que fez tudo ficar ainda mais bonito". Lágrimas escorreram por seu rosto enquanto ela via "como o mundo pode ser bonito". Esta foi sua primeira "viagem" psicodélica, que ela diz ter sido de grande ajuda no tratamento psicoterapêutico para a ansiedade causada pelo câncer de ovário em estágio avançado.

 

Para os cientistas envolvidos na pesquisa, foi mais um pequeno passo no caminho de mostrar que as drogas alucinógenas, famosas e condenadas nos anos 60, poderão um dia ajudar médicos a tratar condições como ansiedade e estresse pós-traumático.

 

O estudo da Universidade de Nova York do qual Nicky tomou parte é um dos poucos em andamento no mundo com drogas como LSD, MDMA (ecstasy) e psilocibina, o ingrediente ativo dos cogumelos alucinógenos. O trabalho segue em linhas de pesquisa sufocadas há anos pela guerra às drogas.  A pesquisa ainda é preliminar, mas está acontecendo.

 

"Agora existem mais pesquisas psicodélicas em andamento no mundo do que em qualquer momento dos últimos 40 anos", disse Rick Doblin, diretor-executivo da Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos, que financia alguns dos trabalhos. "Estamos no fim do começo de um renascimento".

 

Ele disse que mais de 1.200 pessoas participaram de uma conferência na Califórnia sobre ciência psicodélica.

 

Mas fazer a pesquisa não é fácil, disse ele, com o financiamento público escasso e as indústrias desinteressadas em substâncias que não podem ser patenteadas.

 

"Há muita resistência a isso", disse David Nichols, da Universidade Purdue. "A coisa dos hippies nos anos 60" e a cobertura feita pela mídia na época "deixaram um gosto ruim na boca do público em geral".

 

O estudo da Universidade de Nova York está testando se a droga pode ajudar nos nove meses de psicoterapia concedidos a cada paciente. A terapia busca ajudar os pacientes a desfrutar melhor do tempo de vida que lhes resta.

 

Cada participante recebe duas doses de drogas durante o experimento, mas apenas uma delas envolve psilocibina. A outra é um placebo, que apenas causa rubor na face.

 

A entrega da pílula segue um ritual, envolvendo uma taça de cerâmica, porque o uso da psilocibina nas culturas que se valiam da droga sempre esteve ligado a rituais, de acordo com os cientistas.

 

Especialistas advertem que ninguém deve tentar tomar psilocibina por conta própria e sem supervisão, porque a droga pode prejudicar a saúde mental, causando paranoia e ansiedade.

 

Depois da visão do domo brilhante, Nicky passou por duas outras "viagens", envolvendo partes de sua vida. Ela não fala sobre esses trechos da experiência, nem mesmo com amigos. Ela diz que teve "muita tristeza e sofrimento", mas que essas experiências a ajudaram a entender o que era importante em termos de confiança e relacionamentos.

 

Ela falou com os psicoterapeutas sobre o que havia passado. Foi para casa e escreveu 30 páginas de um diário a respeito. E pensou no assunto por semanas. "Acho que me deu mais consciência do que era tão importante e o que estava me deixando triste ou deprimida. Acho que foi revelador", afirmou.

Mais conteúdo sobre:
LSD psilocibina câncer estresse

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.