Geralt/Pixabay
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Cientistas usam 'mapa elétrico' do cérebro para prever risco de depressão

Pesquisa mostrou que é possível utilizar as diferenças entre as redes de atividade de cada animal para descobrir quais deles são suscetíveis a desenvolver doença mental

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

01 Março 2018 | 19h03

SÃO PAULO - Com um experimento feito em camundongos, neurocientistas e engenheiros elétricos americanos descobriram que, ao identificar as diferenças entre as redes de atividade cerebral de cada animal, é possível prever quais deles são mais suscetíveis a desenvolver sintomas de depressão após eventos estressantes.

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O estudo foi realizado por pesquisadores da Universidade Duke (Estados Unidos) e publicado nesta quinta-feira, 1º, na revista Cell. De acordo com os autores, se os resultados puderem ser replicados em humanos, a descoberta será um passo importante para o futuro desenvolvimento de um teste de vulnerabilidade à depressão. 

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"Essencialmente, o que estamos criando é um mapa elétrico da depressão no cérebro. Esperamos que esse mapa possa ser utilizado como uma ferramenta para prever a depressão, da mesma maneira que a pressão sanguínea é usada como uma ferramenta para prever quem poderá ter um ataque cardíaco ou um acidente vascular cerebral (AVC)", disse o autor principal do estudo, Kafui Dzirasa, da Universidade Duke.

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As experiências que provocam estresse, como a morte de pessoas queridas, a perda de um emprego ou um diagnóstico médico difícil, podem gerar emoções negativas como tristeza ou raiva, de acordo com Dzirasa. "Mas enquanto algumas pessoas se recuperam dessas experiências com relativa rapidez, outros acabam manifestando doenças mentais como depressão ou ansiedade."

Segundo o cientista, nas últimas três décadas, os neurocientistas têm utilizado o imageamento e o monitoramento elétrico para estudar como a atividade de regiões cerebrais isoladas pode predispor um indivíduo a desenvolver doenças mentais.

Em 2010, Dzirasa e o orientador de sua pesquisa de doutorado, o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, desenvolveram uma técnica capaz de monitorar a atividade elétrica não apenas em regiões isoladas dos cérebros de camundongos, mas em várias regiões simultaneamente. Os resultados revelaram como diferentes áreas do cérebro trabalham juntas para produzir estados mentais específicos.

"Podemos pensar nas diferentes regiões do cérebro como instrumentos isolados de uma orquestra. Não estamos interessados apenas no que cada instrumento está tocando, mas em como todos os instrumentos emitem sons coordenados para gerar música", explicou Dzirasa.

No experiento, cada camundongo foi colocado em uma gaiola com um outro camundongo maior e mais agressivo. Depois de passar 10 dias com o companheiro "estressante", vários camundongos desenvolveram sintomas semelhantes aos da depressão em humanos, incluindo ansiedade, isolamento social e dificuldade para dormir.

Antes e depois da experiência estressante, Dzirasa e um pós-doutorando da Universidade Duke, Rainbo Hultman, mediram a atividade cerebral em sete regiões diferentes do cérebro que estão ligadas à depressão - incluindo o córtex pré-frontal, a amídala e o hipocampo.

Utilizando técnicas de aprendizado robótico desenvolvidas por outros cientistas da universidade - Kyle Ulrich, David Carlson  e Lawrence Carin - a equipe construiu a "música" do cérebro de cada roedor. 

Os camundongos desenvolveram sintomas de depressão apresentavam padrões distintos de atividade cerebral, antes e depois da experiência estressante, em comparação aos roedores que não desenvolveram os sintomas.

"Até agora, o tratamento mais eficaz para a depressão continua sendo a terapia eletroconvulsiva, mas ela é acompanhada de diversos efeitos colaterais. Pode ser possível dirigir a eletricidade para o local correto, da maneira correta, para criar um tratamento que não tenha os mesmos efeitos adversos de colocar a eletricidade em todo lugar", explicou Dzirasa.

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