Escola de Medicina da Universidade de Washington
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Cirurgia precoce de câncer de próstata pode não salvar vidas, diz estudo

Pesquisa acompanhou durante anos homens que se submeterem à operação e outros que apenas acompanharam o desenvolvimento do tumor

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2017 | 17h00

Uma pesquisa realizada ao longo de 20 anos confirma o que os cientistas já suspeitavam: a cirurgia de câncer de próstata não oferece benefícios para homens no estágio inicial da doença. Nesses homens diagnosticados precocemente, a cirurgia não prolongou a vida e com frequência causou sérias complicações como infecção, incontinência urinária e disfunção erétil.

A pesquisa foi publicada nesta quarta-feira, 12, na revista científica The New England Journal of Medicine. Os cientistas da Universidade de Washington em St. Louis (Estados Unidos) compararam, entre homens com câncer de próstata em estágio inicial, os resultados da cirurgia e da simples observação. Vários dos homens em observação não precisaram de nenhum tipo de tratamento, porque no estágio inicial o câncer de próstata cresce muito devagar e raramente causa sintomas.

"Cerca de 70% dos pacientes diagnosticados com câncer de próstata estão em estágios iniciais da doença e possuem um tumor não agressivo, que fica confinado na próstata e, portanto, são pacientes que têm um excelente prognóstico sem cirurgia. Nosso estudo confirma que o tratamento agressivo é frequentemente desnecessário", disse Gerald Andriole, um dos autores do estudo.

Segundo Andriole, a descoberta ajudará a aprimorar os cuidados com o câncer de próstata. "Esperamos que esses resultados façam os médicos desistirem de recomendar cirurgia ou radioterapia em pacientes com câncer de próstata não agressivo em estado inicial - e que também convença os pacientes de que essas intervenções não são necessárias", disse o cientista.

A nova pesquisa, uma das maiores envolvendo pacientes de câncer - teve início em 1994, assim que os testes de sangue para câncer de próstata se tornaram rotina nos Estados Unidos. Com muitos diagnósticos no país, o padrão de tratamento passou a ser cirurgia ou radioterapia, já que os médicos acreditavam que isso aumentaria a sobrevivência dos pacientes.

No entanto, ao longo da década seguinte, relatos de complicações ligadas aos tratamentos começaram a deixar os cientistas preocupados, assim como dados indicando que a maioria dos tumores em estágio inicial cresciam tão devagar que provavelmente jamais causariam problemas de saúde por toda a vida do paciente.

Para avaliar os benefícios da cirurgia, os cientistas escolheram aleatoriamente 731 homens com câncer de próstata localizado que iam fazer cirurgia, ou ficar em observação nos Estados Unidos. A média de idade dos participantes, no início do estudo, era de 67 anos.

Dos homens que passaram pela cirurgia, 223 (61%) morreram de outras causas após os 20 anos de acompanhamento. Entre os que ficaram apenas em observação, 245 (66%) morreram de outras causas. A diferença é considerada estatisticamente irrelevante.

Entre os homens que passaram por cirurgia, 27 (7%) morreram em decorrência do câncer de próstata, em comparação a 42 (11%) entre os que ficaram apenas em observação. Mais uma vez, a diferença foi considerada estatisticamente insignificante.

Os dados mostram, porém, que a cirurgia pode ter um benefício para alguns homens, em especial para os que têm grande expectativa de vida e um câncer de próstata de risco intermediário.

"Seria um desserviço descartar a cirurgia como uma opção viável para pacientes com câncer de próstata de risco intermediário. Para esses pacientes, e para os que têm tumor de alto risco, a cirurgia é frequentemente benéfica, assim como outros tratamentos como a radioterapia", disse Andriole.

Dos 364 homens tratados com cirurgia, 53 (15%) sofreram de disfunção erétil e 63 (17%) relataram incontinência urinária. Outros 45 desenvolveram outras complicações. "Os benefícios da cirurgia também precisam ser equilibrados com as consequências de longo prazo da cirurgia que é feita muito precocemente", disse outro dos autores do estudo, Timothy Wilt, da Universidade de Minnesota.

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