Claude Lévi-Strauss chega aos 100 anos e recebe homenagens

A Unesco ressaltou que graças a Lévi-Strauss, 'sabemos que a riqueza da humanidade reside na diversidade'

EFE,

28 de novembro de 2008 | 15h55

Claude Lévi-Strauss, um dos intelectuais mais relevantes do século 20, destacado antropólogo e pai do enfoque estruturalista, que influiu de maneira decisiva na filosofia, na sociologia, na história e na teoria literária, completa hoje 100 anos de vida.    100 anos de Lévi-Strauss   Apesar de sua longevidade e intensa atividade intelectual desde antes da 2ª Guerra Mundial, Lévi-Strauss, membro da Academia da França desde 1973, goza de boa saúde e se mantém lúcido, como relatou à imprensa Stéphane Martin, diretor do museu Quai Branly de Paris, instituição que abriga um teatro com o nome do célebre antropólogo.   Francês, embora nascido em Bruxelas (Bélgica) em 28 de novembro de 1908, este centenário humanista é filho de um judeu agnóstico de origem alsaciana que o educou em um ambiente artístico, embora tenha terminado cursando Direito e Filosofia na Sorbonne de Paris.   O autor de Mitológicas lecionou como professor desta última disciplina até receber um convite de Marcel Mauss, pai da etnologia francesa, para ingressar no recém-criado departamento de etnografia.   Foi assim que despertou em Lévi-Strauss a curiosidade por um campo do conhecimento no qual desenvolveria uma brilhante carreira e que lhe concedeu um "lugar proeminente entre os pesquisadores do século 20", explicou à Agência Efe o professor de Antropologia Social da Universidade Complutense de Madri, Rafael Díaz Maderuelo.   Sua nova vocação o levou a aceitar um posto como professor visitante na Universidade São Paulo (USP), de 1935 a 1939, estadia que lhe possibilitou realizar trabalhos de campo no Mato Grosso e na Amazônia.   Ali teve estadias esporádicas entre os índios bororós, nambikwaras e tupis-kawahib, experiências que o orientaram definitivamente como profissional de antropologia, campo no qual seu trabalho ainda hoje "continua sendo válido para a maioria dos antropólogos", declarou Díaz Maderuelo sobre o autor de O Pensamento Selvagem.   Após retornar à França, em 1942, mudou-se para os Estados Unidos como professor visitante na New School for Social Research, de Nova York, antes de uma breve passagem pela embaixada francesa em Washington como adido cultural.   Novamente em Paris, foi nomeado diretor associado do Museu do Homem e se tornou depois diretor de estudos na École Pratique des Hautes Études, entre 1950 e 1974, trabalho que combinou com seu ensino de antropologia social no Collège de France, até sua aposentadoria em 1982, quando dirigia o Laboratório de Antropologia Social.   Discípulo intelectual de Émile Durkheim e de Marcel Mauss, além de interessado pela obra de Karl Marx, pela psicanálise de Sigmund Freud, pela lingüística de Ferdinand Saussure e Roman Jakobson, pelo formalismo de Vladimir Propp etc., é ainda um apaixonado por música, geologia, botânica e astronomia.   As contribuições mais decisivas do trabalho de Lévi-Strauss podem ser resumidas em três grandes temas: a teoria das estruturas elementares do parentesco, os processos mentais do conhecimento humano e a estrutura dos mitos.   A teoria das estruturas elementares defende que o parentesco tem mais relação com a aliança entre duas famílias por casamento respectivo entre seus membros que, como sustentavam alguns antropólogos britânicos, com a ascendência de um antepassado comum.   Para Lévi-Strauss, não existe uma "diferença significativa entre o pensamento primitivo e o civilizado", declarou Díaz Maderuelo, pois a mente humana "organiza o conhecimento em processos binários e opostos que se organizam de acordo com a lógica" e "tanto o mito como a ciência estão estruturados por pares de opostos relacionados logicamente".   Compartilham, portanto, a mesma estrutura, só que aplicada a diferentes coisas. A respeito dos mitos, o intelectual sustenta, desde a reflexão sobre o tabu do incesto, que o impulso sexual pode ser regulado graças à cultura.   "O homem não mantém relações indiscriminadas, mas as pensa previamente para distinguir-las. Desde este momento perdeu sua natureza animal e se transformou em um ser cultural", comentou Díaz Maderuelo.   Para Lévi-Strauss, as estruturas não são realidades concretas, estando mais próximas a modelos cognitivos da realidade que servem ao homem em sua vida cotidiana.   As regras pelas quais as unidades da cultura se combinam não são produto da invenção humana e a passagem do animal natural ao animal cultural - através da aquisição da linguagem, da preparação dos alimentos, da formação de relações sociais, etc - segue leis já determinadas por sua estrutura biológica.   Homenagens O mundo da cultura homenageia o antropólogo e intelectual francês Claude Lévi-Strauss em Paris hoje, dia no qual completa um século de vida.   A ministra de Cultura da França, Christine Albanel, descobrirá uma placa em honra do centenário etnólogo no museu Quai Branly, em Paris, instituição que dedica hoje um dia especial a Lévi-Strauss.   No teatro do museu, que tem o nome do acadêmico francês, diversas figuras da intelectualidade da França participarão de uma leitura de textos do antropólogo.   Além da ministra, lerão parte da obra de Lévi-Strauss o filósofo Raphaël Enthoven, o historiador Alexandre Adler, o escritor Georges-Marc Benhamou, o antropólogo Maurice Godelier, a psicanalista Julia Kristeva, a cineasta Laetitia Masson, o ator e diretor teatral Daniel Mesguich e o jornalista Patrick Poivre D'Arvor, entre outros.   A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), por outro lado, qualificou o homenageado de "uma das maiores figuras intelectuais do século 20".   O diretor-geral da Unesco, Koichiro Matsuura, ressaltou que graças a Lévi-Strauss, "sabemos que a riqueza da humanidade reside na diversidade", diz um comunicado.   A Academia Francesa, instituição da qual o etnólogo faz parte desde 1973, lhe homenageou em sua sessão de ontem, na qual não participou o intelectual, como também não está previsto que participe em nenhum dos atos que hoje serão realizados em sua honra.   Lévi-Strauss, que permaneceu distante dos meios de comunicação durante a celebração de seu aniversário, declarou ironicamente há dez anos, quando completava noventa, que gostaria que o aniversário passasse despercebido, pois este tipo de comemoração tem um lado hipócrita, pois o celebravam pensando que "não haverá oportunidade de festejar o centenário".

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