Imagem Fernando Reinach
Colunista
Fernando Reinach
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Clima que afeta florestas

Estudo de 20 anos conclui que mudanças do clima no leste dos EUA alteram natureza

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2018 | 03h00

Cientistas experimentais dividem o tempo entre duas tarefas. Primeiro coletam dados e em seguida os analisam para tentar entender a natureza. Ao longo da carreira de um cientista, esse ciclo se repete centenas de vezes. Mas não é todo cientista que tem o privilégio de coletar e analisar os próprios dados. Cada vez mais estamos estudando fenômenos lentos que transcorrem ao longo de enormes intervalos de tempo. Nesses casos, a atividade de coletar dados e analisá-los é feita por cientistas de diferentes gerações – a análise ocorre décadas após a coleta dos dados. 

Um exemplo é o de Charles Keeling, que iniciou as medidas da concentração de gás carbônico na atmosfera em 1958, na estação Mauna Loa, no Havaí, e, mais importante, garantiu que esses dados fossem coletados de forma contínua até hoje. Cinquenta anos depois, esses dados permitiram a outros cientistas concluir que o aumento do gás carbônico não só é real, mas é a causa principal do aquecimento global.

Fenômenos lentos levam tempo para serem medidos de forma confiável. Não é medindo a altura do seu filho no início e no fim de um único dia que você vai descobrir quanto ele cresce por ano. E esse tipo de problema é regra no esforço de entender o efeito das mudanças climáticas.

Agora um estudo que acompanhou a resposta de florestas às mudanças climáticas ao longo de 20 anos foi publicado. Desde 1980, as florestas da costa leste dos Estados Unidos são monitoradas. Esse monitoramento ocorre analisando pequenas áreas de mil metros quadrados, localizadas a cada 25 quilômetros quadrados de floresta. 

Em cada área, os cientistas medem o diâmetro de cada árvore e identificam a espécie. Apesar de pequenas diferenças de metodologia entre os diferentes Estados, esse inventário das florestas do leste americano é um dos mais longos e detalhados do mundo. 

Na análise agora publicada, os cientistas usaram os dados de 100 mil dessas pequenas áreas, um total de 3 milhões de árvores, coletados entre os anos de 1980 e 2000. Além disso, eles determinaram as mudanças climáticas que ocorreram em toda a área de floresta no leste do EUA. 

Os dados permitem identificar as áreas que ficaram mais secas, tendo sua pluviosidade diminuída lentamente ao longo das duas décadas, provavelmente por causa do aquecimento global. Em todas essas áreas, cada árvore foi classificada de acordo com sua capacidade resistir à seca. É bem sabido que quanto mais resistente à seca mais lentamente a árvore cresce. Além disso a biomassa de cada uma dessas árvores foi calculada a cada ano depois de dividir as florestas de acordo com sua idade média. A quantidade de dados coletados e analisados é enorme.

A análise desses dados permitiu aos cientistas concluir que as mudanças de clima no leste dos Estados Unidos estão alterando a natureza das florestas da região. Entre diversos outros achados, o que mais me impressionou é que, nos locais onde está diminuindo a quantidade de chuva, o perfil da floresta está mudando. A biomassa das árvores resistentes à seca está crescendo mais rapidamente que a das árvores que necessitam de mais água. 

O resultado final é que, apesar de as florestas aparentemente não terem se modificado, como as árvores resistentes à seca crescem mais lentamente, a quantidade de carbono fixada pela floresta vem diminuindo. 

Mas o mais interessante é que os cientistas concluíram que 20 anos de monitoramento não são suficientes para saber se as taxas de aparecimento (por meio da germinação de sementes) e morte dos dois grupos de árvores estão sendo alteradas pelas mudanças climáticas. Será necessário coletar dados por mais algumas dezenas de anos para poder entender completamente os efeitos das mudanças climáticas sobre essas florestas. Para isso, os cientistas terão de continuar a coletar dados por décadas e, como essa coleta de dados é paga em parte pelo governo federal, não é à toa que os cientistas estão preocupados com as políticas de Trump, que simplesmente não acredita no aquecimento global e deseja cortar as verbas necessárias para continuar esses estudos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.