JPL-Caltech/NASA via The New York Times
JPL-Caltech/NASA via The New York Times
Imagem Fernando Reinach
Colunista
Fernando Reinach
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Colisão e aquecimento

Seres vivos não foram selecionados para se preocuparem com o longo prazo, mas só para sobreviver até a idade reprodutiva

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2018 | 03h00

Decidi romper meu compromisso com o sigilo. Faz aproximadamente um mês, cientistas que monitoram asteroides descobriram que um bloco de rocha vai colidir com a Terra. Estudando a trajetória e a velocidade do asteroide, afirmaram que o impacto será às 19h47min38s, horário de Brasília, de 26 de agosto de 2020. Sabendo a hora do impacto, é possível determinar a face do planeta que vai estar de frente para a rota de colisão. Será na América do Sul. Ainda é cedo para saber onde. 

O asteroide é bem menor do que o que atingiu o México e provocou a extinção dos dinossauros. Estimativas iniciais indicam que deve provocar a destruição total da superfície em um raio de 600 quilômetros do ponto de impacto e afetar o clima do planeta pelos anos seguintes. Informados semana passada, líderes do G-20 decidiram que a única solução é evacuar a população em risco. 

Não é motivo para pânico. Temos um ano e meio para desocupar a área. Com a colaboração de todos os países, deve ser factível. Deu para sentir um princípio de pânico? Chegou a pensar o que fazer com a família? Pensou em medidas concretas a tomar? Ou pensou que um ano e meio é muito tempo? Pode relaxar, inventei isso acima. Na verdade, o fim do planeta será quando o Sol englobar a Terra. 

Estrelas têm ciclo de vida conhecido, com estágios desde a formação ao desaparecimento. Esse ciclo é determinado pelas reações nucleares que ocorrem no seu interior. Com o tempo, o combustível usado para gerar luz e calor se esgota. Com o Sol não será diferente e já sabemos em que estágio ele se encontra. 

O Sol vai começar a se expandir e deve engolir os planetas mais próximos. Em cerca de 3 bilhões de anos, vai engolir a Terra. Muito antes o calor vai exterminar os seres vivos. É necessário que os humanos preparem um plano de longo prazo para deixar a Terra. É a pura verdade. Mas, me diga: ao ler os parágrafos acima você se motivou o suficiente para começar a planejar o futuro de seus descendentes? Ou 3 bilhões de anos é muito tempo e você vai deixar isso para as próximas gerações?

A temperatura da atmosfera vem aumentando desde meados do século 20. É fato comprovado por instrumentos simples, chamados termômetros. Isso ocorre em paralelo ao aumento da quantidade de gás carbônico na atmosfera. É consenso entre cientistas que a elevação da quantidade de gás carbônico é a causa principal desse aquecimento e o aumento do gás carbônico se deve principalmente à queima de combustíveis fósseis. O avanço desse processo pode levar à extinção de grande parte dos seres vivos em 100 ou 200 anos. Se chama aquecimento global. 

É fácil de entender que uma tragédia que ocorrerá em um ano e meio cause pânico, e que uma que ocorrerá em 3 bilhões de anos cause indiferença. Mas como explicar que algo distante 150 anos no futuro seja posto na mesma categoria de algo que só ocorrerá em 3 bilhões de anos? Por que não estamos em pânico? Os seres vivos não foram selecionados para se preocuparem com o longo prazo, mas só para sobreviver até a idade reprodutiva. É fácil entender que os que morrem antes da idade reprodutiva não deixam sobreviventes, e os que vivem mais não levam vantagem. Não há vantagem biológica em viver além do último filho, uma vez que, depois de os genes terem passado à próxima geração, o corpo perde sua razão de existir. 

O cérebro existe e foi selecionado para ajudar na sobrevivência. Por isso, animais estão sempre atentos para não serem devorados por um predador, para a falta iminente de comida ou qualquer acontecimento que possa afetar seu futuro próximo ou reprodução. Só animais que cuidam da prole, ou da prole dos filhos, levam vantagem seletiva ao viver um pouco além da idade reprodutiva. É o que se vê em humanos e baleias.

Com o advento da linguagem, e mais tarde da ciência, o Homo sapiens descobriu que a morte é inevitável e que o planeta continua a existir depois. Por isso, nos preocupamos com filhos e netos. Às vezes, nos preocupamos com bisnetos. Mas é só: qualquer preocupação além desse tempo é soterrada por preocupações mais presentes. 

Nossa biologia nos faz atentar para o futuro próximo. A cultura e a linguagem estendem essa janela por até 100 anos após nossa morte. Os poucos que se preocupam com esse futuro o fazem porque isso faz parte de suas preocupações presentes, como cientistas que estudam o aquecimento global, asteroides, ou o ciclo de vida das estrelas. É seu ganha-pão: seu sucesso reprodutivo depende em parte desse interesse.

Apesar da ciência e do conhecimento acumulado, nossa mente não consegue se preocupar com o futuro distante. Assim como não se preocupa com aquecimento global, com o rombo da Previdência ou a educação de gerações futuras. Romper essa propensão biológica tem se mostrado extremamente difícil para a espécie. Ainda não sabemos se a educação será capaz de nos mudar o suficiente para que haja essa preocupação. Talvez seja possível, mas dará tempo?

*É BIÓLOGO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.