HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
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Daniel Martins de Barros
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Com quantos tipos se faz a humanidade

Embora o ser humano seja múltiplo, é possível perceber padrões de comportamento

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2018 | 03h00

Quem resiste a um teste de personalidade? Estamos na sala de espera do dentista, folheando revista, quando nos deparamos com o questionário: “Quem você é no seriado Game of Thrones”. Lá vamos nós responder avidamente. Se navegando pela internet nos aparece um convite para descobrir, digamos, “qual a cor da sua personalidade”, é difícil resistir. 

Isso não vem de hoje. Na Antiguidade Grega acreditava-se que o balanço entre os líquidos corporais – os humores – determinariam a personalidade. Quando o sangue predominava, a pessoa era sanguínea. A linfa criava os fleumáticos. Se o principal humor fosse a bile, o sujeito era colérico (não por acaso choli é bile em grego). E a bile negra (melan + choli) causaria a melancolia. A bile negra não existe de fato, mas isso não importava muito, pois os melancólicos existiam – e estão até hoje por aí.

Com o progresso do conhecimento sobre a fisiologia humana, a ideia desse balanço entre os líquidos não se sustentou, arrastando em sua queda tal tipologia humana. Mas não acabou com o desejo de enquadrar as pessoas em tipos.

Faz sentido, afinal. Embora o ser humano seja múltiplo, é possível perceber alguns padrões gerais de comportamento. Como Carlos Drummond de Andrade percebeu em seu poema Igual-Desigual, “Todas as criações da natureza são iguais. Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais. Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa. Ninguém é igual a ninguém. Todo ser humano é um estranho. Ímpar”. Cada um é um, ninguém é igual ao outro, mas às vezes é tudo tão parecido. E nosso cérebro – categorizador insaciável – vê essas semelhanças e não resiste a encontrar algumas molduras básicas para enquadrar as pessoas. 

Foi publicado este mês o maior estudo já realizado sobre os traços de personalidade. Pesquisadores americanos compilaram dados de 1,5 milhão de questionários online. Para dar uma ideia, pesquisas sobre personalidade eram consideradas grandes quando conseguiam reunir algumas centenas de participantes. Chegar aos milhares era raro. Com mil vezes mais do que isso, como conseguiram fazer, é óbvio que os resultados se tornam mais confiáveis. Se um extraterrestre chega por aqui e só conversa com meia dúzia de pessoas, não tem uma ideia precisa sobre quem nós somos. Quanto mais gente ele conhece, mais consegue captar o panorama geral.

Os cientistas americanos se basearam em um modelo conhecido como big five, por trazer cinco grandes traços de personalidade. São eles: (1) Neuroticismo – facilidade para experimentar emoções negativas, instabilidade; (2) Extroversão – capacidade de ter emoções positivas, gosto pela companhia alheia; (3) Amabilidade – capacidade de cooperar, confiar; (4) Conscienciosidade – autocontrole, disciplina; (5) Abertura – criatividade, curiosidade, interesse pelo novo.

Esses traços são desigualmente distribuídos entre nós, determinando personalidades diferentes. Mas os cientistas descobriram, ao avaliar esse tanto de gente, que há, sim, grandes grupos de pessoas. Há o tipo mediano, alto em neuroticismo e extroversão, mas com pouca abertura. Basta olhar em volta para concordar que essa é a média das pessoas mesmo. Os jovens tendem a ser autocentrados, com grande extroversão, mas também pouca abertura, amabilidade e conscienciosidade. As redes sociais estão aí para provar. Há os reservados, que, não sendo extrovertidos nem neuróticos, demonstram estabilidade emocional, amabilidade e conscienciosidade. A gente não vê muito desses, talvez porque estejam em casa, mas podemos contar com eles. E, finalmente, os que foram chamados de modelos, porque têm pouco neuroticismo e muito do resto. Algo que, os dados comprovaram, só se consegue envelhecendo.

Sim, existem pessoas que estão com um pé em cada categoria. E também as que não estão em nenhuma dessas cinco. Talvez daqui a séculos as pessoas riam dessa proposta, como hoje rimos dos antigos humores. Mas, quando isso acontecer, será só porque estarão descobrindo outra maneira de nos enquadrar – porque esse traço humano, sim, parece atravessar as gerações. 

*É PSIQUIATRA

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