Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Coma menos carne vermelha, disseram cientistas; há quem acredite que esse foi um mau conselho

Se faz bem à saúde comer menos carne bovina e suína, os benefícios são pequenos, concluíram os pesquisadores

Gina Kolata, do New York Times, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2019 | 19h52

As autoridades de saúde pública há anos recomendam aos americanos que limitem o consumo de carne vermelha e carnes processadas devido a preocupações de que tais alimentos estejam ligados a doenças cardíacas, câncer e outros males.

Mas na segunda-feira, em uma notável reviravolta, uma colaboração internacional de pesquisadores divulgou uma série de análises concluindo que o conselho dado, uma base fundamental de quase todas as diretrizes alimentares, não é apoiado por boas evidências científicas.

Se faz bem à saúde comer menos carne bovina e suína, os benefícios são pequenos, concluíram os pesquisadores. De fato, as vantagens são tão pequenas que só podem ser notadas quando se observam grandes populações, disseram os cientistas, e não são suficientes para dizer às pessoas para mudarem seus hábitos de comer carne.

“A certeza das evidências para essas reduções de risco foi de baixa a muito baixa”, disse Bradley Johnston, epidemiologista da Universidade Dalhousie, no Canadá, e líder do grupo que publicou a nova pesquisa nos Annals of Internal Medicine.

As novas análises estão entre as maiores avaliações já feitas e podem influenciar futuras recomendações alimentares. De muitas maneiras, eles levantam questões desconfortáveis quanto ao aconselhamento dietético e pesquisa nutricional, e que tipo de padrões esses estudos devem adotar.

Eles já enfrentaram duras críticas de pesquisadores de saúde pública. A American Heart Association, a American Cancer Society, a Harvard T.H. Chan Escola de Saúde Pública e outros grupos atacaram ferozmente as descobertas e a revista que as publicou.

Alguns pediram que os editores da revista retardassem a publicação. Em um comunicado, os cientistas de Harvard advertiram que as conclusões “afetam a credibilidade da ciência da nutrição e corroem a confiança do público na pesquisa científica”.

O Comitê de Médicos para Medicina Responsável, um grupo que defende uma dieta baseada em vegetais, apresentou na quarta-feira uma petição contra a revista na Federal Trade Commission. Frank Sacks, ex-presidente do comitê de nutrição da American Heart Association, chamou a pesquisa de “fatalmente falha”.

Embora as novas descobertas provavelmente agradem aos defensores das populares dietas com alto teor de proteínas, elas parecem aumentar a consternação pública com os conselhos alimentares que parecem mudar a cada poucos anos. As conclusões representam outra em uma série de irritantes reviravoltas nas dietas que envolvem sal, gorduras, carboidratos e muito mais.

A perspectiva de um apetite renovado por carne vermelha também contraria duas outras tendências importantes: uma conscientização crescente da degradação ambiental causada pela produção animal e uma preocupação de longa data com o bem-estar dos animais empregados na agricultura industrial.

A carne bovina, em particular, não é apenas mais um alimento: era um símbolo precioso da prosperidade pós-Segunda Guerra Mundial, firmemente colocada no centro dos pratos americanos. Mas, à medida que aumentam as preocupações com os efeitos sobre a saúde, o consumo de carne bovina diminuiu constantemente desde meados da década de 1970, em grande parte substituído por aves.

“A carne vermelha costumava ser um símbolo de alta classe social, mas isso está mudando”, disse o Dr. Frank Hu, presidente do departamento de nutrição da Harvard T.H. Chan Escola de Saúde Pública em Boston. Hoje, quanto mais altamente instruídos são os americanos, menos carne vermelha comem, ele observou.

Ainda assim, o americano médio come cerca de 4 1/2 porções de carne vermelha por semana, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Cerca de 10% da população come ao menos duas porções por dia.

Os novos relatórios são baseados em três anos de trabalho de um grupo de 14 pesquisadores em sete países, juntamente com três representantes da comunidade, dirigidos por Johnston. Os investigadores não relataram conflitos de interesse e realizaram os estudos sem financiamento externo.

Em três revisões, o grupo analisou estudos indagando se o consumo de carne vermelha ou carnes processadas trazia risco de doenças cardiovasculares ou câncer.

Para avaliar as mortes por qualquer causa, o grupo revisou 61 artigos feitos em 55 populações, com mais de 4 milhões de participantes. Os pesquisadores também analisaram estudos aleatórios que ligavam carne vermelha a câncer e doenças cardíacas (são muito poucos), bem como 73 artigos que examinaram as ligações entre carne vermelha e incidência e mortalidade por câncer.

Em cada estudo, os cientistas concluíram que os vínculos entre comer carne vermelha e doenças e morte eram pequenos, e a qualidade das evidências ia de baixa a muito baixa.

Tomadas em conjunto, as análises levantam dúvidas sobre as diretrizes alimentares de longa data que exigem que as pessoas comam menos carne vermelha, disseram especialistas.

“As diretrizes são baseadas em trabalhos que, presumivelmente, dizem que há evidências do que dizem, mas não existem”, disse Dennis Bier, diretor do Centro de Pesquisa em Nutrição Infantil da Baylor College of Medicine, em Houston, e ex-editor do American Journal of Clinical Nutrition.

David Allison, reitor da Escola de Saúde Pública da Universidade de Indiana - Bloomington, citou “uma diferença entre uma decisão de agir e tirar uma conclusão científica”.

Uma coisa é uma pessoa acreditar que comer menos carne vermelha e carne processada melhorará a saúde. Mas ele disse: "se você quiser dizer que as evidências mostram que comer carne vermelha ou carnes processadas tem esses efeitos, isso é mais objetivo", acrescentando que “as evidências não sustentam isso”.

Allison recebeu financiamento de pesquisa da National Cattlemen's Beef Association, um grupo de lobby para produtores de carne.

Os novos estudos foram recebidos com indignação por pesquisadores de nutrição que há muito dizem que carne vermelha e carnes processadas contribuem para o risco de doenças cardíacas e câncer.

“Irresponsável e antiético”, disse Hu, de Harvard, em um comentário publicado online com seus colegas. Estudos de carne vermelha como um risco à saúde podem ter sido problemáticos, ele disse, mas a coerência das conclusões ao longo dos anos lhes dá credibilidade.

Os estudos de nutrição, ele acrescentou, não devem manter os padrões rígidos dos estudos de medicamentos experimentais.

As evidências dos riscos da carne vermelha ainda convenceram a American Cancer Society, disse Marjorie McCullough, diretora científica sênior do grupo.

“É importante reconhecer que este grupo revisou as evidências e encontrou o mesmo risco de carne vermelha e processada como outros especialistas”, disse ela em comunicado. “Então eles não estão dizendo que carne é menos arriscada; eles estão dizendo que o risco com o qual todos concordam é aceitável para os indivíduos”.

No centro do debate está uma disputa sobre a própria pesquisa nutricional e se é possível verificar os efeitos de apenas um dos componentes da dieta. O padrão ouro para evidência médica é o ensaio clínico aleatório, no qual um grupo de participantes recebe uma droga ou dieta e outro recebe uma intervenção diferente ou um placebo.

Mas é quase impossível pedir às pessoas que sigam uma dieta designada ao acaso e que a mantenham por tempo suficiente para saber se isso tem influência sobre o risco de ataque cardíaco ou câncer.

A alternativa é um estudo observacional: os pesquisadores perguntam às pessoas o que comem e buscam ligações com a saúde. Mas pode ser difícil saber o que as pessoas realmente estão comendo, e as pessoas que comem muita carne são diferentes de muitas outras maneiras daquelas que comem pouca ou nenhuma.

“As pessoas que habitualmente consomem hambúrgueres no almoço também consomem batatas fritas e coca-cola, em vez de iogurte ou salada e um pedaço de fruta?”, perguntou Alice Lichtenstein, nutricionista da Universidade Tufts. “Não acho que uma posição baseada em evidências possa ser adotada, a menos que conheçamos façamos um ajuste para substituir o alimento”.

Os resultados são uma oportunidade para reconsiderar como a pesquisa nutricional é feita no país, disseram alguns pesquisadores, e se os resultados realmente ajudam a informar as decisões de um indivíduo.

“Eu não realizaria mais estudos de observação” disse John Ioannidis, professor de Stanford que estuda políticas e pesquisas em saúde. “Já tivemos o suficiente deles. É extremamente improvável que estejamos perdendo um grande sinal”, referindo-se a um grande efeito de qualquer mudança alimentar específica sobre a saúde.

Apesar das falhas nas evidências, as autoridades de saúde ainda precisam aconselhar e oferecer diretrizes, disse Meir Stampfer, também da Harvard T.H. Chan Escola de Saúde Pública. Ele acredita que os dados a favor de comer menos carne, embora imperfeitos, indicam que é provável que haja benefícios à saúde.

Uma maneira de dar conselhos seria dizer “reduza a ingestão de carne vermelha”, disse Stampfer. Mas então, “As pessoas diriam: ‘Bem, o que isso significa?’”

Os funcionários que fazem recomendações acham que precisam sugerir várias porções. No entanto, ao se fazer isso, “passa-se uma aura de maior precisão do que a existente”, acrescentou.

Tradução de Claudia Bozzo

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