Combustível vegetariano

Imagine só: se você dirige um carro movido a álcool, saiba que seu automóvel está sendo impelido por "xixi" de fungo alimentado com garapa - o mesmo caldo de cana que você toma com pastel na barraca da feira.   Eu já escrevi neste mesmo espaço, alguns meses atrás sobre a origem do álcool, tanto o do combustível quanto o da cerveja, mas a coisa ficou ainda mais interessante esta semana, quando uma empresa americana anunciou que vai começar a produzir diesel de cana-de-açúcar no Brasil, em parceria com empresários e cientistas brasileiros.   Ou seja: o mesmo caldo de cana que já nos dá o etanol vai nos dar também, em alguns anos, um diesel sem poluentes e 100% renovável.   Enquanto a Petrobrás quebra a cabeça para descobrir como tirar petróleo do pré-sal, enterrado milhares de metros abaixo da superfície em alto mar, é interessante pensar que o combustível "do futuro" já está sendo plantado e colhido aqui mesmo na superfície, bem diante dos nossos olhos.   Quem já dirigiu pelo interior paulista sabe do que eu estou falando. Na região de Ribeirão Preto, é possível dirigir por horas sem ver nada pela janela que não seja cana-de-açúcar. Eu fiz recentemente uma viagem dessas pela Rodovia Anhagüera, de São Paulo até Uberaba (MG), e o tempo todo eu olhava para os jovens canaviais do lado de fora e pensava: "Aí está crescendo o combustível que vai abastecer o meu carro daqui a alguns meses."   Quando estiver bem crescidinha, aquela cana toda vai ser espremida - igualzinho se faz na barraca da feira, só que numa moenda bem maior, em uma usina - e o açúcar presente no caldo vai ser dado de comida a leveduras (fungos) que, em troca, vão secretar o álcool (ou diesel), que vai ser coletado, purificado e enviado para os postos de combustível. Isso me faz lembrar daquela cena final do filme De Volta para o Futuro, em que o maluco Dr. Brown volta do futuro dirigindo um DeLorean voador, equipado com um tanque de combustível chamado "Mr. Fusion - Home Energy Reactor", parecido com uma daquelas centrífugas brancas de fazer suco do presente. Ele abre a tampa, joga dentro uma casquinha de banana, um restinho de cerveja (mais a lata) e pronto ... está abastecido para viajar no tempo de novo.   Em 1985, quando o filme foi lançado, isso era mais fantasia do que ficção científica. Mas pense bem: se o Dr. Brown agora socasse um punhado de bagaço de cana ou despejasse um restinho de garapa no Mr. Fusion, a coisa não pareceria tão fictícia assim.   Hoje ainda precisamos de usinas enormes para fermentar o açúcar da cana e processar o álcool para nós. Mas quando os primeiros computadores foram inventados algumas décadas atrás, eles também eram máquinas enormes, lentas, que ocupavam uma sala inteira e precisavam de vários operadores para funcionar. Hoje temos laptops menores do que um caderno de escola, supervelozes, e com memória do tamanho de uma biblioteca.   Quem sabe, no futuro, não teremos também uma usina de álcool portátil, tipo Mr. Fusion, capaz de fermentar o açúcar de restos de comida e processar álcool no espaço de um porta-malas? Quem sabe as barraquinhas de pastel não serão os postos de gasolina do futuro?   Eu quero o meu Mr. Fusion! Mas enquanto o futuro não chega voando num DeLorean, ficamos com os canaviais e os usineiros, plantando combustível por aqui mesmo. Pois se a Arábia Saudita tem os seus poços de petróleo, nós temos as nossas plantações de açúcar!   Pense nisso a próxima vez que abastecer o carro com xixi de levedura.

16 de outubro de 2008 | 17h23

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