Neil Armstrong/NASA/Handout via REUTERS
Neil Armstrong/NASA/Handout via REUTERS

Começa uma nova era de exploração espacial

A redução dos custos, as novas tecnologias, as ambições chinesas e indianas e uma nova geração de empreendedores, prometem uma era intrépida de desenvolvimento espacial

The Economist, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2019 | 20h06

Quando, há 50 anos, Neil Armstrong pisou na superfície da Lua, o mundo recebeu a notícia com espanto, orgulho e assombro. Este jornal declarou que “a partir de hoje o homem pode ir para qualquer lugar no universo que sua mente desejar e sua engenhosidade imaginar...Para os planetas, mais cedo do que pensamos, é certo que o homem irá”. Mas não. A aterrissagem na Lua foi uma aberração, um objetivo alcançado não como um fim, mas como um meio de sinalizar os extraordinários recursos dos EUA. Somente 571 pessoas estiveram em órbita e desde 1972 ninguém se aventurou muito mais distante no espaço do que a distância de Des Moines até Chicago.

Os próximos 50 anos devem ser muito diferentes. A redução dos custos, as novas tecnologias, as ambições chinesas e indianas e uma nova geração de empreendedores, prometem uma era intrépida de desenvolvimento espacial. E quase certamente isto envolverá turismo para os ricos e redes de comunicação melhores para todos; no longo prazo abrangerá a exploração mineral e até o transporte em massa. O espaço se tornará uma extensão da Terra – um campo de atividade para empresas e indivíduos e não apenas governos. Mas para esta promessa ser cumprida o mundo precisa criar um sistema de leis para reger os céus – em tempos de paz e, se chegarmos a isso, em tempos de guerra.

O desenvolvimento espacial até agora tem se concentrado em facilitar as atividades abaixo dele – principalmente as comunicações por satélite para radiodifusão e navegação. Agora duas coisas estão mudando. Primeiro, a geopolítica vem dando um novo impulso no sentido de enviar humanos para além da Baixa Órbita Terrestre. A China planeja viagens com pessoas aterrissando na Lua em 2035. O governo do presidente Trump pretende que os americanos cheguem lá em 2024. Os custos em queda tornam hoje esta presunção mais acessível do que outrora. Apollo custou centenas bilhões de dólares (em valor atual). Hoje bastam algumas dezenas de bilhões.

Em segundo lugar, o setor privado amadureceu. Entre 1958 e 2009 quase todos os gastos no espaço eram feitos por agências estatais, especialmente a NASA e o Pentágono. Na década passada o investimento privado aumentou para uma média anual de US$ 2 bilhões, ou 15% do total e deve crescer ainda mais. A SpaceX, empresa de foguetes de Elon Musk, realizou 21 lançamentos bem sucedidos de satélites no ano passado e está avaliada em US$ 33 bilhões. Jeff Bezos, fundador da Amazon, vende o equivalente a US$ 1 bilhão de ações que possui na sua empresa a cada ano para pagar seu empreendimento espacial, o Blue Origin. A  Virgin Galactic planeja abrir seu capital este ano e está avaliada em US$ 1,5 bilhão. Tanto em capital como em ideias o setor privado oferece muito mais eficiência. De acordo com a NASA, os foguetes Falcon da SpaceX custariam à agência US$ 4 bilhões; o gasto da SpaceX com eles foi um décimo desse valor.

Dois novos modelos comerciais existem ou estão dentro do alcance: as grandes operações de lançamento e manutenção de enxames de satélites de comunicação em órbita baixa e o primeiro nicho de turismo para os ricos. O próximo ano verá com certeza a Virgin Galactic e a Blue Origin transportando passageiros em excursões suborbitais que oferecerão as emoções da leveza do corpo e uma vista da extremidade curva da Terra tendo ao fundo o céu negro do espaço. A Virgin Galactic afirma que poderá transportar quase mil aventureiros ricos ao ano em 2022. A SpaceX está desenvolvendo uma “nave estelar” maior e muito mais capaz do que seus Falcons. Yusaku Maezawa, um magnata japonês da moeda, já fez o pagamento antecipado de uma viagem em torno da Lua: ele pretende ir com uma trupe de artistas em 2023.

Essas possibilidades devem dobrar as receitas do setor especial para US$ 800 bilhões em 2030, segundo o banco UBS. E mais para o futuro o desenvolvimento espacial reformulará a maneira como a humanidade vive.

Musk espera enviar colonos para Marte. Bezos, o homem mais rico do mundo, quer ver milhões de pessoas ganhando a vida em estações espaciais, talvez antes da aterrissagem de Armstrong na Lua completar cem anos.

Numa era em que a Terra depara com notícias lúgubres sobre  mudança climática, crescimento lento e políticas inquietantes, o espaço oferece uma razão surpreendente para sermos otimistas. Mas não é uma panaceia e nem uma via de escape. E para realizar sua promessa, um grande problema tem de ser resolvido e um risco perigoso evitado. O grande problema é o desenvolvimento de normas legais. O Tratado do Espaço de 1967 declara que o espaço é “província da humanidade” e interdita declarações de soberania. O que deixa muito espaço para interpretação. Os EUA afirmam que empresas privadas podem desenvolver recursos especiais; e a lei internacional é ambígua.

Quem pode reivindicar o uso do gelo dos polos da Lua para respiração artificial? Os colonos em Marte teriam permissão para fazer o que quiserem com o meio ambiente? Quem será o responsável no caso de colisões de satélites? O espaço já está densamente povoado, com mais de dois mil satélites em órbita e a NASA monitora 500.000 detritos individuais se precipitando a uma velocidade de mais de 27.000 quilômetros por hora.

Essas incertezas aumentam o risco maior: o uso da força no espaço. A capacidade incomparável dos EUA de projetarem sua força na Terra depende de sua ampla cadeia de satélites. Outras nações, sabendo disto, construíram armas antissatélite, como também os Estados Unidos. E a atividade militar no espaço não tem protocolos testados e nem regras de combate.

Estados Unidos, China e Índia estão aumentando cada vez mais seus recursos destrutivos: satélites militares com lasers, obstruindo seus sinais para a terra ou mesmo os explodindo, com seus detritos se espalhando pelo cosmos. E estão também transformando suas forças armadas numa divisão espacial. Trump planeja formar uma Força Espacial, a primeira das forças armadas desde a criação da força aérea em 1947. Na véspera do desfile militar anual de 14 de julho, na França, o presidente Emmanuel Macron também anunciou a formação de um novo comando espacial.

No céu como na Terra

É um erro promover o espaço como um Oeste selvagem romantizado, uma fronteira anárquica onde a humanidade se libertará das suas limitações e redescobrirá o seu destino. Para o espaço realizar sua promessa é necessária governança. Num tempo em que o mundo não consegue estabelecer de comum acordo regras para o comércio terrestre de barras de aço e soja essa é uma questão importante. Mas sem governança, no melhor dos casos o potencial de tudo isto vai demorar mais 50 anos para se realizar. E no pior, o espaço aumentará ainda mais os problemas da Terra. /Tradução de Terezinha Martino

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