David Becker/AFP
David Becker/AFP

Cometa Neowise poderá ser visto no Brasil nesta quinta; saiba como

Estima-se que o corpo celeste, descoberto em março pela Nasa, só retornará daqui a 6.800 anos

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2020 | 18h30
Atualizado 23 de julho de 2020 | 10h10

SÃO PAULO - O cometa Neowise poderá ser visto pelos brasileiros, a olho nu, nesta quinta-feira, 23, dia em que alcança sua aproximação máxima da Terra. No Sudeste, o corpo celeste deve ser melhor observado a partir de sexta-feira, 24, e no Sul, por volta de domingo, 26. Mesmo fora desses dias, há possibilidade de avistar o fenômeno pelo País até 31 de julho.

O ideal é olhar à direita do ponto onde o Sol se põe - ele deverá aparecer perto da linha do horizonte. Os interessados em ver essa passagem precisam estar atentos porque somente daqui a 6.800 anos é que ele estará por aqui novamente. Outra ressalva é que fenômenos como esse variam muito de um dia para o outro, são imprevisíveis e algumas condições são necessárias para que a cena seja registrada.

No hemisfério norte do planeta, ele provocou um verdadeiro espetáculo. Fotos mostram um luminoso corpo redondo acompanhado por uma cauda igualmente brilhante atravessando os céus da Itália e da República Checa, por exemplo. Em 15 de julho, o Neowise passou sobre as Seven Magic Mountains, no deserto de Nevada, nos Estados Unidos.

"No hemisfério norte foi um show, muito bonito, mas nada garante que será assim no hemisfério sul, porque à medida que os dias vão passando, o cometa vai se afastando do Sol e ficando mais fraco", explica o astrofísico Roberto Dell'Aglio Dias da Costa, do Departamento de Astronomia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP).

É o astro-rei que faz os cometas serem vistos. Compostos por um núcleo de gelo, o calor solar provoca a sublimação desse material, transformando-o de sólido para gasoso. O gás que sobe pela superfície do corpo dá a visão do brilho que rasga o céu em sua passagem. Quanto mais longe do Sol, menos partes são desprendidas e menos visível ele fica. Longe do Sol, ele é apenas uma grande pedra fria.

O Neowise, ou C/2020 F3, recebeu o mesmo nome do telescópio espacial, lançado pela Nasa em 2009, que o descobriu em 27 de março deste ano. A partir daí, começou-se um estudo sobre o objeto para classificá-lo e estimou-se que esse cometa tem uma órbita de, aproximadamente, 6.800 anos. Ou seja: esse é o tempo que ele demora para dar uma volta completa em torno do Sol.

Como ver o cometa Neowise no Brasil

Segundo o astrofísico do IAG-USP, a previsão é que o cometa Neowise fique visível nas datas indicadas depois do pôr do sol, bem junto ao horizonte, no sentido noroeste. Será preciso olhar para o ponto em que o Sol está se pondo e direcionar os olhos um pouco para a direita. "Como vai ser muito baixo no horizonte, o observador tem de procurar um horizonte que esteja limpo, sem prédios e um lugar escuro, sem iluminação artificial, em noite sem nuvens", indica Costa.

A pedido do Estadão, o especialista criou imagens no software Stellarium que mostram a posição em que o cometa será visto no horizonte. A figura abaixo traz uma previsão do dia 22 de julho, quando o corpo celeste estará bem na linha do horizonte, por trás de algumas árvores. Nas seguintes, é possível ver para os dias 24 e 26.

Ele adianta que não será fácil ver, mas um binóculo comum ou uma luneta podem ajudar. O que se verá é uma forma característica: uma cabeça brilhante com cauda, fácil de identificar em meio a estrelas. Para a próxima semana, o clima deve ajudar a ter um céu com poucas nuvens. Costa diz, ainda, que quem estiver nas regiões Norte e Nordeste verá o cometa melhor do que quem estiver no Sudeste, que por sua vez terá uma visão mais nítida de quem mora no Sul.

A olho nu, a pessoa terá a impressão de que o corpo celeste está imóvel em relação ao fundo estrelado, mas caso faça uso de um binóculo, será possível ver um movimento lento no céu. Esse instrumento óptico é o mais indicado para observar os cometas em comparação com telescópios, por exemplo, diz Costa.

Ele também recomenda que as lentes sejam transparentes, que têm melhor uso para a noite, diferente das alaranjadas que são mais ideais para o dia. Caso o observador opte por um telescópio, o astrofísico faz um alerta: "não se deve nunca, em hipótese alguma, apontar o telescópio ou luneta para o Sol, porque isso pode causar lesão permanente na retina". Seguindo essas dicas, é até possível ver o cometa por mais de um dia seguido, mas a cada um deles a visão será pior no horizonte.

O que são cometas?

Basicamente, cometas são pedras de gelo compostas por um material volátil, que passa do sólido para o gasoso, e outro mais "sujo", com poeira ou pedras de diferentes tamanhos. Eles fazem parte do Sistema Solar, geralmente são descobertos por acaso, mas têm uma órbita mais elíptica, o que caracteriza bem quando estão perto ou longe do Sol.

Além dos cometas, existem ainda os asteroides, que estão percorrendo o espaço; os meteoroides, que são corpos muito pequenos, com menos de um metro de diâmetro; os meteoros, que estão na atmosfera da Terra e que conhecemos por estrelas cadentes; e os meteoritos, que são as sobras de um meteoro que caiu após trafegar na atmosfera terrestre.

Sobre o Neowise, sabe-se que ele é um cometa periódico, ou seja, passa pela Terra a cada período específico - quase 7 mil anos nesse caso. Ele registrou sua aproximação máxima ao Sol em 3 de julho, quando ficou a uma distância de 43 milhões de quilômetros, segundo Costa. Já a aproximação máxima da Terra será nesta quinta-feira, com uma distância de 103 milhões de quilômetros.

O astrofísico explica que os cometas podem desaparecer em algum momento. Conforme vão passando pelo Sol, eles perdem uma pequena parte de sua massa volátil, porém são necessárias dezenas ou centenas de passagens para que sumam de vez. No futuro, eles tendem a se transformar apenas em um corpo sólido e alguns asteroides são considerados cometas extintos.

É raro, mas cometas também podem colidir contra o Sol ou um meteoro durante seu trajeto. "O que pode acontecer, e é razoavelmente comum, é que ao se aproximar do Sol, o campo gravitacional do Sol pode fazer com que o núcleo do cometa se quebre em pedaços, porque o calor é muito grande e o corpo do cometa não é muito rígido", diz Costa.

O mais conhecido dos cometas é o Halley, que pode ser visto da Terra a cada quase 76 anos. Estima-se que a próxima "visita" dele será em 2061. No ano passado, foi possível ver a chuva de meteoros dele. Relembre aqui.

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