EFE
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Como a Nasa realizou um conserto remoto do telescópio Hubble

Agência americana convocou aposentados para reparo do equipamento lançado ao espaço em 1990 e que havia parado de funcionar desde 13 de junho; módulo envia novas imagens à Terra

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2021 | 15h04

Depois de mais de um mês parado, o Hubble voltou a funcionar no último sábado, 18, e já enviou à Terra imagens inéditas de duas galáxias incomuns, segundo informou a Nasa. O veterano telescópio espacial foi lançado em 1990 com previsão de funcionar por 15 anos, mas já está em órbita há mais de três décadas. Com o conserto, feito à distância, são grandes as chances de o equipamento continuar na ativa, mesmo após o lançamento do James Webb, seu substituto, previsto para o fim deste ano.

"Carro velho é fogo, né?", brincou a astrônoma Duília de Mello, da Universidade Católica da América, colaboradora do Centro de Voos Espaciais Goddard, da Nasa, onde fica o centro de controle da missão do telescópio. "Meu pai falava isso, não tem jeito, começa a dar problema."

O computador de transmissão de dados, que controla os instrumentos científicos a bordo do observatório, parou de funcionar subitamente em 13 de junho. Automaticamente, todos os instrumentos científicos do Hubble entraram em modo de segurança. O telescópio parou de gerar informações.

Veteranos desarquivaram documentos dos anos 1980 para reativar telescópio que parou

Para consertar o equipamento construído ainda nos anos 1980, engenheiros do controle da missão do Hubble contaram com o conhecimento de especialistas que trabalharam com o telescópio ao longo de sua história. Ex-alunos, funcionários aposentados e até mesmo especialistas que participaram da construção do observatório foram convocados. Documentos de 40 anos atrás foram desarquivados para ajudar os engenheiros a encontrar um caminho para o conserto.

"Esse é um dos benefícios de ter um programa que está em funcionamento contínuo há mais de 30 anos: a grande quantidade de experiência e expertise acumulada", afirmou Nzinga Tull, gerente de respostas anômalas do Hubble.

Quando um grupo de astronautas esteve no Hubble pela última vez, em 2009, foram feitos alguns consertos e instalados equipamentos de backup, o que estendeu a vida útil do observatório. Entre eles, o do computador de transmissão de dados.

Para colocar o telescópio novamente em ação, os especialistas tiveram que acionar o backup à distância pela primeira vez na história. A manobra levou 15 horas, mas funcionou. O Hubble voltou a funcionar no último dia 15 e, dois dias depois, já estava enviando dados à Terra.

Desde que foi lançado, em 1990, o Hubble já fez mais de 1,5 milhão de observações que mudaram nossa compreensão do Universo. As informações geradas pelo telescópio – que fica a 547 quilômetros da Terra – contribuíram para algumas das mais importantes descobertas já feitas. Entre elas, a expansão acelerada do Universo, a evolução das galáxias ao longo do tempo, os primeiros estudos da atmosfera de planetas fora do Sistema Solar.

"O lançamento do Hubble pode ser comparado com a ida do homem à Lua; ambos representaram um grande avanço do ponto de vista astronáutico", comparou Duília de Mello. "Sempre foi um projeto de grande importância dentro da Nasa, o telescópio que nos revelaria o Universo."

O telescópio acabou entregando muito mais do que o prometido.

"A imagem mais importante do Hubble, eu sempre falo, é a das profundezas do Universo, do campo ultraprofundo do Universo", diz a astrônoma brasileira, que participou dessa pesquisa. "Mas tem muito mais coisa, como a formação das estrelas, dos sistemas solares, os quasares, os buracos negros supermassivos, só com o Hubble vimos isso tudo."

Ao anunciar o conserto do telescópio, o administrador chefe da Nasa, Bill Nelson, comemorou, elogiando a equipe viabilizou a solução do problema:

"Estou muito feliz que os olhos do Hubble estejam olhando de novo para o Universo, mais uma vez capturando o tipo de imagens que vem nos intrigando e inspirando há décadas. Por meio dos esforços desse grupo, o Hubble continuará sua viagem de 32 anos e nós continuaremos a aprender por meio de sua visão transformadora."

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