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Como o povo aproximou Padre Cícero da Igreja

Antropólogo lança livro em que mostra a trajetória da devoção ao ‘santo’ renegado pela hierarquia

Emilio Sant'Anna, de O Estado de S.Paulo,

28 de junho de 2008 | 17h03

"Valei-me Padre Cícero!" Na boca do sertanejo nordestino, a expressão é mais comum do que a prece a qualquer santo oficial da Igreja Católica. Mesmo perseguida e relegada a uma categoria inferior de devoção por muitos anos, a fé no "Padim Ciço" segue inabalável no cotidiano dessa gente. Assim, o 'santo' que a Igreja não reconhece ser santo vai se tornado cada vez mais 'santo'.     Veja a galeria de fotos    Chamado em 2002 para participar de uma comissão de pesquisadores com o objetivo de resgatar a imagem do padre, o antropólogo Antônio Mendes da Costa Braga passou três anos em contato com o cotidiano dos romeiros que todos os anos migram para Juazeiro do Norte, no sertão cearense, para entender o que move a fé daquele povo.   Para eles, a idéia do que é ser santo não é a mesma da Igreja. Isso somado à própria trajetória do Padre Cícero Romão Batista e sua santificação extra-oficial pelos devotos geraram anos de marginalização da fé desses romeiros. A pesquisa de Braga virou seu doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), agora transformada em livro. Padre Cícero Sociologia de um Padre, antropologia de um Santo (EDUSC, 364 págs, R$ 41).   Nessa entrevista ao Estado, Braga mostra como as posições tão diferentes entre a fé popular e o reconhecimento da Igreja tendem a se aproximar e como o dia em que Padre Cícero vai ser considerado oficialmente santo pode estar próximo.   Hoje, o litígio entre a devoção ao Padre Cícero e a Igreja é menor do que já foi?   Claramente, por parte do poder eclesiástico, há um processo de absolvição dessa devoção a começar pela releitura da figura do padre e da relação da Igreja com essa fé. Mudou substancialmente. É um processo de aproximação.   Essa aproximação pode acabar na canonização do Padre Cícero?   Não sei se existe esse objetivo claro. Mas, com o passar do tempo isso se torna uma possibilidade cada vez mais real. Como antropólogo, percebo que por se tratar de uma das maiores devoções católicas no Brasil, mesmo não sendo um santo 'oficial', há cada vez mais uma presença da Igreja dentro das romarias, o que não acontecia anos atrás, quando a romaria existia de forma marginal. Antigamente, os bispos do Crato não participavam de nada que era ligado à devoção ao Padre.   Existe alguma experiência semelhante de participação da Igreja numa celebração que não é oficializada por ela mesma?   O caso mais famoso é o do Padre Pio, na Itália. A Igreja via com certa desconfiança a devoção ao Padre Pio e hoje ele foi canonizado. Então, existem precedentes na história da devoção popular que aos poucos foi se mostrando importante e criando credibilidade.   A Igreja pode desprezar uma devoção como essa? Se você pensar hoje no contexto brasileiro, não pode se dar ao luxo de desprezar o fiel e essa devoção. Especialmente num momento de reconfiguração do campo religioso brasileiro com o aumento do número de pessoas que não são praticantes de religião e sobretudo o aumento dos evangélicos.   Até que ponto o poder dessa manifestação de fé é capaz de mudar a posição da Igreja? No livro, eu trabalho a questão do que é ser santo. Do ponto de vista da Igreja oficial há uma valorização de uma certa hagiografia - um conjunto de valores como a história do indivíduo que justificam sua santidade -, já na devoção popular o ser santo passa pela relação do devoto com o santo. No caso do Padre Cícero, essa relação existe há mais de 70 anos e cresce cada vez mais.   A visão do romeiro é completamente diferente da Igreja?   O romeiro não tem dúvidas de que o Padre Cícero é santo. Você entende isso no momento em que entende a relação dele com o santo. O santo é aquele que está presente no seu cotidiano, aquele com quem ele pode se relacionar de forma direta. É uma relação pessoal.   A força da santidade do Padre Cícero está no fato de que ele se faz presente no dia-a-dia do fiel. É diferente da discussão no plano eclesiástico, onde toda a discussão é uma questão de pretérito, de entender o contexto em que ele viveu e como se comportou.   Até que ponto a imagem de Padre Cícero foi construída pela fragilidade social em que ele e os sertanejos estavam inseridos?   Isso é fundamental, tanto que o fiel chama ele de padrinho e não de padre. E o que é o padrinho? É aquele que cuida, que no caso de necessidade o devoto pode pedir ajuda. O Padre Cícero supria certas carências até mesmo de forma concreta dessas pessoas que estavam inseridas num contexto de miséria.   Como ele se relacionava com o poder local?   Ele destoava de uma série de elementos desse contexto, ainda que até certo ponto fizesse parte de uma prática clientelista. Mas existem formas e formas de clientelismo. No caso dele, era um clientelismo atravessado por uma relação religiosa e afetiva com seus romeiros. Isso era diferente do clientelismo daquela época.     A devoção em Padre Cícero deve continuar crescendo?   Acho que tende a se tornar cada vez mais pública. Ainda hoje, existe um certo constrangimento em admitir a devoção, principalmente pela classe média. A tendência é a redução desse estigma.

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