Pilar Olivares/Reuters
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Como sedimentos no fundo de um lago no Peru ajudam a entender os ciclos de esfriamento da Terra

Da mesma maneira que podemos estudar a vida de uma árvore contando e medindo os anéis de crescimento que se formam a cada ano, é possível estudar a história dos glaciais que circundam o lago Junín estudando as camadas de sedimentos

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2022 | 05h00

O lago Junín fica no Peru, no meio da cordilheira dos Andes, 4.100 metros acima do nível do mar. Sua água vem dos glaciais que cercam boa parte do lago e acaba desaguando na bacia amazônica. Cada ano, o degelo dos glaciais carrega para o lago sedimentos das montanhas sobre as quais repousam os glaciais.

Faz anos os cientistas descobriram que essa região não sofreu terremotos ou erupções vulcânicas e o fundo do lago é composto por milhares de camadas de sedimentos, cada uma correspondente ao degelo anual dos glaciais. Da mesma maneira que podemos estudar a vida de uma árvore contando e medindo os anéis de crescimento que se formam a cada ano, é possível estudar a história dos glaciais que circundam o lago Junín estudando as camadas de sedimentos que se acumulam a cada ano.

Quando o degelo é menor, a camada de sedimentos que se acumula vai ser mais fina. Quando o degelo é intenso mais sedimentos se acumulam. Essa variação também reflete os grandes ciclos de esfriamento e aquecimento do planeta.

Sabemos que esses ciclos de aumento de diminuição da temperatura do planeta ocorrem a cada 100 mil anos. O último período glacial ocorreu 20 mil anos atrás quando a Inglaterra foi coberta por gelo e o canal da Mancha congelado. Hoje estamos em um período de aquecimento do planeta que começou 20 mil anos atrás, agravado pela atividade humana, principalmente pela liberação de gás carbônico com a queima de carvão e petróleo.

Para entender o ciclo de aquecimento de esfriamento na região tropical do planeta um grupo de cientistas resolveu estudar os sedimentos acumulados no lago Junín. Cavaram um furo de 88 metros de profundidade. Esse furo foi feito com um equipamento que funciona como um desses furadores de cinto.

Quando você dá uma pancada, uma rodela do couro fica dentro do furador e pode ser retirada. No caso do furo no lado de Junín, uma amostra era retirada a cada 2,5 centímetros e essas pequenas fatias do solo do lago eram montadas na superfície. O resultado é uma sequência de 3.520 discos, cada um correspondente a uma profundidade.

Os discos mais profundos correspondem ao sedimento depositado no passado e os mais na superfície aos sedimentos acumulados mais recentemente. Usando técnicas que analisam a radioatividade presente em cada uma dessas amostras, os cientistas foram capazes de determinar quando eles foram depositados.

As camadas mais profundas (88 metros) correspondem a sedimentos que se soltaram das geleiras 677 mil anos atrás (lembre que o Homo sapiens surgiu faz 250 mil anos). Sabendo a idade de cada camada, é relativamente fácil para os cientistas calcularem quanto de sedimento se acumulou no fundo do lago a cada milênio.

Assim, quando eles fizeram um gráfico da quantidade de sedimento acumulado por ano ao longo dos 677 mil anos, fica claro que existe um ciclo de aproximadamente 100 mil anos: são aproximadamente 50 mil anos em que a quantidade de material acumulada vai diminuindo, seguido de 50 mil anos de aumento gradativo da quantidade de sedimento acumulada. Esse dado indica que as geleiras que suprem o lado de água e sedimentos se expandiram e contraíram a cada 100 mil anos. Nesses 677 mil anos ocorreram sete períodos de degelo (diminuição do glacial) seguidos de sete períodos de aumento da quantidade de gelo (aumento do glacial).

Essa descoberta confirma o que foi encontrado nos dois polos com furos no gelo, ou seja, que existem ciclos de 100 mil anos de aquecimento e desaquecimento. Mas o mais interessante é que esses ciclos ocorreram de modo sincronizado nos dois polos do planeta e também na região tropical (Peru).

Com esses dados é possível concluir que o aquecimento e desaquecimento ocorreu simultaneamente em todo o planeta. Ainda não sabemos qual o fenômeno que provoca esses ciclos de 100 mil anos de duração. Sabemos somente que estamos em uma fase de aquecimento do planeta. E é certo que a humanidade está contribuindo para esse fenômeno. Se a humanidade sobreviver 30 mil anos, vamos começar a sentir os efeitos de um novo resfriamento. Com os estragos que estamos fazendo nos últimos 100 anos vai ser difícil sobrevivermos mais 30 mil anos. É uma pena.

Mais informações:  700,000 years of tropical Andean glaciation

 

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