Conferência do clima começa com cobrança aos ricos

Em meio a duras críticas disparadas pelos representantes dos governos dos países pobres contra os ricos, começou nesta segunda-feira na capital argentina a 10.ª Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-10).A cúpula, que reúne representantes de mais de 180 países, além de dezenas de ONGs e organismos inter-governamentais, está sendo o cenário de debates sobre as medidas a serem tomadas em todo o planeta para minimizar o impacto do aquecimento global.A conferência debutou com uma marcada tendência dos países em desenvolvimento em acusar os países desenvolvidos de estarem fazendo poucos esforços para reduzir as emissões de gases que causam o efeito estufa, propiciando, desta forma, a permanência da tendência de aquecimento do planeta.CooperaçãoDurante a abertura da COP-10, Mohamed Jassim Al-Maslamani, representante do Catar, discursando em nome do Grupo dos 77 (G-77) mais a China, afirmou que é preciso que a cooperação internacional torne-se efetiva imediatamente, já que as mudanças climáticas ficam "cada vez mais críticas".Segundo ele, o impacto das mudanças climáticas recentes causou "prejuízos graves, especialmente para os países em desenvolvimento, onde o impacto foi desastroso a tal ponto que a frágil infra-estrutura social e econômica foi seriamente danificada.Por este motivo, argumenta, é preciso que os países ricos façam uma urgente transferência de tecnologia aos países pobres. Segundo Al-Maslamani, os ricos precisam mostrar sua adesão aos compromissos: "Isso é essencial para as negociações futuras do segundo período do Protocolo".EUA e KyotoAs principais críticas foram endereçadas aos Estados Unidos, país que assinou o Protocolo de Kyoto mas não o homologou. Desta forma, o maior emissor mundial de gases (responsável por 36,1% do total do planeta) não obriga as empresas instaladas em seu território a moderar suas emissões.A secretária-executiva da Convenção de Mudança Climática, Joke Waller-Hunter, recordou que entre 1990 e o ano 2000, a redução anual de emissão de gases em países desenvolvidos foi de 6,6%.No entanto, isso só foi alcançado graças aos países em desenvolvimento, que encolheram suas emissões em 40% nesse período. Os países altamente industrializados aumentaram suas emissões em 7%.AdaptaçãoOutra tendência desta cúpula é a de não focalizar-se somente nas estratégias para reduzir a emissão de gases, mas também, a de como "adaptar-se" às mudanças climáticas que despontam como inevitáveis.Esta postura é nova, e indica que muitos países já admitem que as mudanças climáticas nos últimos anos foram mais graves do que era esperado. Os ecologistas criticam esta postura, a qual consideram "fatalista".ResignaçãoEsse tom de resignação - segundo alguns - ou de pragmatismo - segundo outros - foi dado pelo próprio anfitrião do evento, o ministro da Saúde da Argentina, Ginés González García, em cuja pasta está a Secretaria do Ambiente.García declarou, ao inaugurar a COP-10, que nesta cúpula serão debatidas duas estratégias: "Uma é a diminuição da contaminação e a outra é sobre como preparar-se perante o dano já produzido".O ministro destacou que as estatísticas são categóricas, e que demonstram o impacto das mudanças climáticas em nosso planeta."As conseqüências do aquecimento global estão acontecendo já. Temos que olhar para o futuro com a determinação de que é preciso fazer mais. É preciso mais solidariedade entre os países e entre as gerações de seres humanos", disse. Depois, a modo de slogan, arrematou: "nós temos que mudar...para evitar que o clima mude".Arca de NoéDe forma paralela à COP-10, diversas ONGs estão realizando atividades para expor seu ponto de vista sobre as catástrofes climáticas.A pole-position nas manifestações desta cúpula foi tomada pelo grupo Greenpeace, que chamou mais atenção do que a própria abertura da COP-10 ao colocar ao lado do Obelisco, o monumento-símbolo de Buenos Aires, uma simulação da lendária Arca de Noé.A intenção do Greenpeace era a de realizar um alerta para os perigos do aquecimento global, que a longo prazo poderia causar uma inundação de diversas áreas do planeta.O diretor da Greenpeace Argentina, Juan Carlos Villalonga sustentou que os negociadores dos governos reunidos na COP-10 deveriam levar em conta "os milhões de pessoas que perderão tudo o que possuem por causa dos desastres que o aquecimento global produzirá nos próximos anos". leia mais

Agencia Estado,

06 de dezembro de 2004 | 23h33

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