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Constantemente chapada

Um dos raríssimos casos de pessoas que sentem muito pouca dor

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2019 | 03h00

Uma senhora de 66 anos com um caso severo de artrose (osteoartrite), em ambas as mãos, foi operada para corrigir uma deformação no polegar direito. A operação tem um pós-operatório dolorido. Ao acordar da anestesia, não reclamou de dor e tampouco pediu os fortes analgésicos que os médicos haviam receitado. Ela foi para casa e a dor que sentiu passou com um analgésico comum. O que chamou a atenção dos enfermeiros é que ela não reclamou quando a agulha em sua veia foi posta ou retirada e tampouco sentiu dor quando era levemente beliscada. Um dos médicos resolveu investigar e descobriu que ela tampouco havia sentido dor anos antes, quando havia colocado uma prótese na cabeça do fêmur, outra operação que provoca muita dor. Também contou que não sentia dor quando se queimava ou se cortava, e uma vez só percebeu que a mão estava queimando quando sentiu o cheiro de churrasco. Os médicos concluíram que esse era mais um dos raríssimos casos de pessoas que sentem muito pouca dor. 

Mas o que explica essa falta de dor? A mãe da paciente e sua filha sentem dor normalmente, mas seu filho também sente pouca dor. Claramente a causa era hereditária e um time de geneticistas foi convocado para ajudar a resolver o mistério. Os genomas da paciente e de seu filho (resistentes a dor) foram sequenciados e comparados com o da filha e da mãe que sentiam dor normalmente. Essa comparação revelou que tanto a paciente quanto o filho tinham um pequeno pedaço de DNA faltando (uma deleção) muito perto de um gene chamado FAAH (Fatty-Acid Amide Hydrolase). A paciente tinha essa deleção em ambas as cópias do gene e o filho em somente uma cópia.

A função da proteína produzida por esse gene é conhecida. Essa proteína degrada uma classe de lipídeos, os FAAs (fatty-acid amides). Entre eles existe um que chamou a atenção dos pesquisadores, o AEA (a anandamida) e eles exclamaram, EURECA! Imediatamente foram medir a quantidade de anandamida no sangue da paciente. Tiro e queda, estava brutalmente elevada e a explicação é óbvia: se o gene responsável pela degradação da anandamida (o FAAH) estava com defeito, a anandamida não era degradada e se acumulava no sangue.

Imediatamente a senhora de 66 anos foi encaminhada a um grupo de psicanalistas e psicólogos, e eles confirmaram o que os médicos suspeitavam. A paciente reportava ter sido sempre muito alegre durante toda a vida, ria de qualquer piada, nunca havia sofrido de ansiedade e tampouco tinha propensão ou tinha sofrido de depressão. Como ela mesmo dizia, era uma pessoa alegre e feliz.

Agora vem a explicação, preste atenção. A anandamida, que a paciente tem e sempre teve em excesso no sangue, é uma molécula que todos temos em nosso corpo em baixa quantidade. Ela se liga a um receptor. Esse receptor foi descoberto não por se ligar à anandamida, mas porque é o receptor que se liga aos canabinoides, moléculas que existem na maconha. Quando fumamos maconha, os canabinoides se ligam a esse receptor e provocam os efeitos que conhecemos. É importante entender que esses receptores não existem para se ligar aos canabinoides, sua função no corpo é se ligar à anandamida.

O que ocorre nessa risonha senhora é que ela possui um defeito no gene que destrói a anandamida, o que faz com que essa molécula exista em grande quantidade em seu sangue. Essa alta concentração de anandamida leva essa molécula a se ligar a todos os receptores de canabinoide que existem no corpo, o tempo todo, desde o nascimento até o presente. Resultado: essa senhora não sente dor pois está permanentemente anestesiada. Além disso, está sempre sorridente, sem ansiedade e sem depressão. Tudo pela grande quantidade de anandamida em seu sangue. 

Em outras palavras essa alegre senhora vive a vida em um estado mental e físico muito semelhante ao vivido por cada um de nós quando fumamos maconha. Como diziam na minha juventude, ela vive sempre chapada.

MAIS INFORMAÇÕES: MICRODELETION IN A FAAH PSEUDOGENE IDENTIFIED IN A PATIENT WITH HIGH ANANDAMIDE CONCENTRATIONS AND PAIN INSENSITIVITY. BRITISH J. ANESTHESIA(2019)

*É BIÓLOGO

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