Construções ecológicas ficam mais acessíveis

Construir com menos desperdício, usando processos e materiais ambientalmente corretos já não é sinônimo de excentricidade. Novas técnicas, novos produtos e novos conceitos de arquitetura e engenharia estão disponíveis no mercado brasileiro, para quem procura casas, edifícios ou escritórios mais adequados ao clima e à luz tropicais. E as opções ecológicas não são, necessariamente, as mais caras, sobretudo quando se consideram os custos de manutenção e uso, no cálculo da obra.Nesta semana, no dia 14, o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), inaugura sua nova sede, em Piracicaba, interior de São Paulo, com o propósito de demonstrar isso. Toda construída em madeira certificada ? dos pilares de sustentação aos móveis e objetos de decoração ? a casa foi projetada para garantir o máximo conforto térmico, sem precisar de ar condicionado ou ventilador, por exemplo. Uma abertura no teto assegura a saída do ar quente e a ventilação natural. E paredes duplas mantém o calor do lado de fora. O desenho arquitetônico, de Lúcia Zanin Shimbo, ainda privilegia a luz solar, dispensando lâmpadas acesas durante o dia, sem recorrer a estruturas exóticas ou difíceis de executar. ?Mas o principal é o processo de produção dos componentes construtivos?, explica Lúcia. ?Fizemos um planejamento preciso de todas as peças, com tamanhos e encaixes de cada uma, com grande redução na produção de resíduos de madeira na obra e conseqüente aumento do aproveitamento de pedaços de madeira menores, na serraria, lá na floresta, ou na marcenaria?.Projeto adaptadoO processo foi a tese de mestrado da arquiteta e de outros estudantes da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que integram os grupos Habis, de pesquisa em habitação e sustentabilidade (sobretudo em construções populares), e GesQe, de estudos sobre a qualidade nas edificações. As fases de construção e decoração também receberam apoio de outras faculdades, como a USP São Carlos, PUC Poços de Caldas, FAAP e FAU/USP.Diversas etapas da construção exigiram revisão do projeto arquitetônico, para adaptar as estruturas ao material disponível, uma vez que boa parte da madeira veio das empresas certificadas pela Imaflora, como doação ou amostra. Foram usadas 8 espécies diferentes de árvores ? eucalipto, pinus, jatobá, massaranduba, itaúba, agarapeira, sucupira e angelim ? de 21 fornecedores diferentes, entre os quais estão os índios Xicrin do Cateté (Pará) e a comunidade extrativista de Costa Marques (Rondônia). ?Em alguns casos tivemos de buscar soluções estruturais, no desenho arquitetônico, para suprir a falta de vigas de um determinado comprimento, o que terminou sendo uma oportunidade de demonstrar o que pode ser feito com economia de material, parecendo até um capricho de design?, acrescenta Lúcia.Banheiro secoDentro do escritório, os banheiros são comuns, aos olhos do usuário. A diferença só é percebida quando se verifica que o revestimento está assentado sobre madeira e não alvenaria. Ali se usou um impermeabilizante de base vegetal, renovável e atóxico, para isolar a madeira da umidade e poder usar paredes de gesso para assentar os azulejos.É na edícula, porém, que está a maior inovação, proposta pelo agrônomo Alexander Van Parys Piergili, da UFSCar. Numa adaptação inusitada à proibição de uso de fossa séptica, naquela faixa de terreno, foi feito um banheiro seco, ?semelhante aos utilizados na Austrália, onde a água é considerada muito nobre para ser usada em descargas?, comenta Piergili, que conheceu banheiros semelhantes nos institutos de Permacultura de Goiás e Ubatuba (Ipec e Ipema).O banheiro seco tem dois níveis. No térreo ficam a pia e o chuveiro e toda a água servida segue para um reservatório enterrado no chão, cercado por matéria orgânica, para onde a água segue por capilaridade, depois de um período de decantação. Assim, ao invés de ir para o esgoto ou fossa, esta água irriga as plantas do jardim. No andar superior do banheiro seco ficam dois vasos sanitários, que terminam em câmaras de biodigestão. Cada uma é utilizada por seis meses, depois é fechada, enquanto se usa a outra. O período é suficiente para transformar as fezes em adubo para plantas ornamentais.?Claro que há uma barreira cultural aí, o brasileiro ainda está muito acostumado à abundância de água e estranha a idéia de um banheiro seco, acha que vai ficar cheirando mal?, argumenta Lúcia. Mas ela acredita que o uso e a demonstração podem quebrar a resistência.

Agencia Estado,

10 de fevereiro de 2003 | 10h07

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