Conversa cara a cara

Para estudar o local do cérebro onde ocorre o processamento visual relacionado à capacidade de inferência, um grupo de cientistas colocou macacos em um equipamento de ressonância magnética capaz de medir, ao longo do tempo, a atividade de cada região cerebral

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2017 | 03h00

Uma das funções do cérebro é produzir inferências, com base em informações captadas pelo sistema visual. Assim, se observamos um tijolo cair sobre um ovo, nosso cérebro é capaz de inferir que o ovo é relativamente frágil em relação ao tijolo. E essas inferências são utilizadas para guiar atos futuros. Se, no momento seguinte, fomos manipular um ovo, isso será feito com cuidado. Por outro lado, se o tijolo não quebrar o ovo, vamos inferir que esse não é um ovo normal, similar a todos os ovos frágeis que já observamos, e essa nova inferência vai nos levar a apertar esse ovo rígido para verificar a veracidade de nossa inferência.

Nos animais sociais, essa capacidade de inferência é utilizada para entender relações entre objetos inanimados (tijolo e ovo), entre objetos inanimados e membros da espécie (macaco e ovo) e também entre dois membros da espécie (macaco e macaco). O cérebro dos macacos e de seres humanos possui uma capacidade sofisticada de fazer inferências sobre interações entre membros da espécie. Macacos, observando o comportamento de outros macacos, fazem inferências sobre agressividade, posição social e relações familiares. Seu cérebro também tem essa capacidade. Observando o comportamento de um casal em uma mesa distante, somos capazes de inferir se são parentes, namorados ou casados, se estão apaixonados, discutindo a relação ou de mau humor. Os cientistas acreditam que nos animais sociais a capacidade de inferência a partir de observações visuais é essencial para a manutenção da coesão do grupo, contenção da violência e outros atos relacionados ao convívio social.

Para estudar o local do cérebro onde ocorre o processamento visual relacionado à capacidade de inferência, um grupo de cientistas colocou macacos em um equipamento de ressonância magnética capaz de medir, ao longo do tempo, a atividade de cada região cerebral. É com esse tipo de equipamento que os cientistas estão mapeando as áreas envolvidas em diferentes atividades. Se você colocar uma pessoa em uma máquina dessas e mostrar fotos eróticas ou aterrorizantes, diferentes regiões do cérebro serão ativadas. Nesse caso, foram estudados quatro macacos e, para cada um deles, durante o tempo em que estavam no equipamento, foram mostrados filmes de cenas reais de três tipos de interações: entre objetos inanimados, entre objetos inanimados e outros macacos e entre dois macacos.

O que os cientistas observaram é que, durante a exibição das imagens, diferentes regiões do cérebro eram ativadas. Elas incluíam regiões relacionadas à memória, ao controle dos olhos e assim por diante, mas uma coisa chamou a atenção. Existe uma região no cérebro dos macacos que só é ativada quando são mostradas imagens de interações entre dois macacos, qualquer que seja o tipo de interação entre eles, seja de afeto ou agressão. E isso provavelmente explica por que os macacos possuem uma capacidade aguda de fazer inferências sobre essas relações.

O interessante é que essa área é muito próxima de uma área no cérebro humano que é ativada quando fazemos um tipo muito especial de inferência. Interagindo com outras pessoas somos capazes de criar uma teoria do que está se passando na mente da outra pessoa, e utilizamos a teoria para guiar nossos atos – é o que os cientistas chamam “teoria da mente”. 

O fato de a área utilizada por nosso cérebro para criar teorias da mente ser semelhante às áreas utilizadas pelos macacos quando fazem inferências sobre relações entre membros de sua espécie levou os cientistas a propor que essa área nos macacos se transformou ao longo da evolução na área que utilizamos para criar teorias da mente. 

É interessante notar que todas essas áreas especializadas operam processando imagens de interações reais entre seres humanos, mas na sociedade moderna muitas das interações deixaram de ser observadas diretamente e passaram a ser observadas de maneira indireta, em cartas, vídeos e mensagens em celulares. Portanto, não é de se espantar quando nosso cérebro erra repetidamente ao fazer inferências utilizando fontes modernas de informação. Por isso, nada substitui uma conversa cara a cara e continuamos a viajar milhares de quilômetros para fechar negócio ou fazer uma venda.

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MAIS INFORMAÇÕES: A DEDICATED NETWORK FOR SOCIAL INTERACTION PROCESSING IN THE PRIMATE BRAIN. SCIENCE, VOL. 356. PÁG. 745 (2017)

É BIÓLOGO

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