COP expõe duas faces do debate sobre clima nos EUA

Os Estados Unidos mostram duas faces na Conferência da ONU sobre Mudança Climática que está sendo realizada em Montreal: a da Casa Branca, oposta a qualquer compromisso sobre reduções de C02, e a de grupos ecologistas, que dizem representar a maioria do país.Alden Meyer é um dos representantes da "outra" delegação americana na Cúpula de Montreal, como diretor de Estratégia e Política da Union of Concerned Scientists (UCS), uma organização sem fins lucrativos que reúne cientistas e cidadãos preocupados com o meio ambiente."A administração do presidente George W. Bush representa a minoria. Atualmente, nos Estados Unidos, há apenas um punhado de pessoas que questionam a ciência", que vincula as emissões de dióxido de carbono e outros gases gerados pela atividade industrial à mudança climática, explicou Meyer.Dupla tarefaMeyer, cuja organização faz parte da Rede de Ação Climática, que reúne os principais grupos ambientalistas que exigem uma ação imediata para reduzir as emissões de CO2, tem uma dupla tarefa: nos EUA, educar a população americana sobre o Protocolo de Kyoto e, no cenário internacional, desmontar percepções erradas sobre o país."Nos Estados Unidos, o debate mudou nos últimos anos. A questão já não é mais se existe a mudança climática. Isso já foi aceito. O debate real se centra no custo para a economia e na eficácia de uma ação dos EUA", disse.O diretor reconhece que ainda há "bolsões de resistência" entre os setores mais conservadores da sociedade americana, que nutrem a administração Bush. Um deles é o presidente do Comitê do Senado sobre Meio Ambiente, o senador republicano por Oklahoma, James Inhofe, que, segundo Meyer, declarou que "o Protocolo de Kyoto é a maior fraude cometida contra o povo americano".ArtigoOutro expoente da "resistência" é o artigo divulgado em 1.º de dezembro no site da televisão conservadora Fox e assinado por Steven Milloy, um professor adjunto do Instituto Cato. No artigo, citado em sites conservadores para justificar a posição da administração Bush na Conferência de Montreal, Milloy repete a idéia de que os dados científicos disponíveis não comprovam a mudança climática.Para comprovar sua lógica, Milloy usa o recente artigo publicado pela Nature que adverte sobre futuras reduções da temperatura na Europa, em conseqüência da diminuição de correntes marítimas, e a declaração da Agência Européia do Meio Ambiente de que a Europa enfrenta o pior aquecimento dos últimos cinco mil anos."Está esfriando. Está aquecendo. É um desastre. É fantasia. O que quer que esteja acontecendo, não pode ser reconfortante para os defensores de Kyoto em Montreal, que parecem acreditar que eles sabem com certeza que a atividade humana afeta o clima global e como", escreveu Milloy."Para muitos membros da base política do Partido Republicano, o aquecimento global é um assunto religioso, acima de uma questão de lógica", afirmou Meyer.Iniciativas estaduaisO diretor da UCS defende que a comunidade internacional deve olhar os EUA com uma visão mais ampla, o que oferece um panorama muito diferente.Ele deu como exemplo as iniciativas legislativas da Califórnia e de outros dez Estados para estabelecer ambiciosos limites a suas emissões de CO2, o aumento do número de projetos de geração de energias renováveis a níveis locais e estaduais, e o crescente envolvimento do setor privado na redução de emissões.Steve Sawyer, chefe da delegação do Greenpeace em Montreal, também acredita que os Estados Unidos são muito mais que a administração Bush e elogia a atitude de Estados e do setor privado do país.EvangélicosMeyer indica outro elemento que pode transformar radicalmente a posição oficial dos Estados Unidos. "Nos próximos meses, a Associação Nacional de Evangélicos, uma organização conservadora que representa a base popular de Bush, emitirá um comunicado contra a mudança climática, por considerar que ameaça a criação de Deus", afirmou Meyer.Mas, mesmo que os influentes evangélicos se expressem contra a mudança climática, nem Meyer nem Sawyer esperam uma mudança da Casa Branca. "Bush é muito conhecido por sua incapacidade para reconhecer que errou."  mudanças climáticas

Agencia Estado,

05 de dezembro de 2005 | 11h28

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