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Copos de crânio

Achados sugerem que o utensílio e outros ossos são produto do canibalismo

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2019 | 03h00

Foi encontrado mais um copo feito de crânio humano. Desta vez foi no sul da Espanha, em uma caverna perto de Málaga. Já foram achados copos de crânio em oito localizações na Europa, a maior parte no sul da Espanha, mas também na Alemanha e na Inglaterra. Todos foram feitos durante o Neolítico. Os mais antigos datam de 14.700 anos atrás e os mais recentes de aproximadamente 4 mil anos atrás. Nessa época, os habitantes da Europa já praticavam a agricultura, mas as cidades ainda não existiam na região. Na caverna de El Toro foram encontrados dois conjuntos de ossos humanos, um contendo o copo de crânio, um pedaço de mandíbula humana e alguns fragmentos de ossos. No outro foram encontrados diversos ossos humanos longos, principalmente de braços, mãos e pés. A idade foi determinada com relativa precisão: essas pessoas morreram entre 5.280 e 4.780 anos atrás. 

Os copos de crânio consistem na parte superior e posterior de um crânio humano que foi recortado para ficar no formato de uma tigela, algo bastante trabalhoso, já que as bordas têm de ser recortadas cuidadosamente. Eles não parecem ser objetos de uso cotidiano, pois são raros, muitas vezes encontrados com potes de cerâmica, e não contêm traços de alimentos no seu interior.

Analisando o copo de crânio, os cientistas foram capazes de descobrir como ele foi feito. Se imagina que a cabeça foi retirada do corpo e levada para ser processada. A mandíbula e a maxila foram removidas, assim como os ossos da face. Marcas de instrumentos cortantes no osso indicam que o couro cabeludo e os músculos foram cuidadosamente removidos. Então o crânio foi aberto, removendo a parte inferior, onde a coluna vertebral se insere, o que deve ter dado origem a uma espécie de meia esfera óssea. As beiradas desse copo foram cuidadosamente aparadas, removendo pequenos pedaços de ossos até toda a beira do copo ficar no mesmo plano. Para isso foram usados instrumentos de corte e percussão (como uma pedra). Um dos pedaços removidos durante esse processo foi encontrado no chão, o que demonstra que o copo de crânio foi produzido exatamente naquele local da caverna. Além disso, a parte externa parece polida e cozida, uma aparência que é obtida quando o osso é fervido por longo tempo em uma panela de barro. O atrito do osso com a panela é que dá a aparência polida ao copo de crânio.

No segundo local foram encontrados ossos humanos com marcas de facas, como as produzidas para retirar a carne e marcas de dentes, como mordidas. Além disso, muitos deles estavam partidos ao meio, como se a intenção fosse retirar a medula óssea. A análise de DNA dessas ossadas demonstra que pelo menos duas pessoas eram parentes entre si. Esses achados sugerem aos especialistas que o copo de crânio e os outros ossos são produtos de canibalismo.

O canibalismo é geralmente dividido em três grupos, dependendo do motivo: sobrevivência, agressão e ritos funerários. No primeiro caso, é a fome que leva ao canibalismo; na segunda, o canibalismo seria resultado da violência, quando o inimigo não somente é morto, mas é devorado. No terceiro caso, o canibalismo faz parte de rituais funerários, quando a ingestão de parentes falecidos faz parte de um ritual religioso. 

Apesar de existirem muitas evidências de violência durante o Neolítico, com uma abundância de ossos quebrados, geralmente os cadáveres são encontrados inteiros. O canibalismo por sobrevivência também é improvável pela abundância de alimentos. O mais provável é que o copo de crânio e as outras evidências de canibalismo em El Toro sejam testemunho de algum tipo de ritual, onde o corpo é separado em partes e somente algumas são levadas para o ambiente da caverna. Mas tudo isso é especulação. O que realmente acontecia nessa caverna 5.500 anos atrás, para que era usado o copo de crânio, e o que motivava esse comportamento de nossos ancestrais dificilmente será descoberto. Só nos resta observar esses crânios transformados em copos e imaginar.

MAIS INFORMAÇÕES: AGGRESSIVE OR FUNERARY CANNIBALISM? SKULL-CUP AND HUMAN BONE MANIPULATION IN CUEVA DE EL TORO (EARLY NEOLITHIC, SOUTHERN IBERIA). AM J. PHYS. ANTHROPOL. PÁG. 1 (2019)

*É BIÓLOGO

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