Reprodução Google Street View
Reprodução Google Street View

Coprólitos com ossos

São 14 coprólitos descobertos, cada um no formato aproximado de uma esfera com aproximadamente 2,7 centímetros de diâmetro

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

02 Junho 2018 | 03h00

Coprólitos são fezes fossilizadas. Da mesma maneira que ossos de dinossauros são preservados por dezenas de milhões de anos, muitas vezes as fezes deixadas por diferentes animais são encontradas pelos paleontólogos nas suas escavações. Muitos desses profissionais dedicam suas carreiras a estudar esses materiais. O caso dos coprólitos descobertos recentemente na costa oeste dos Estados Unidos é um bom exemplo.

São 14 coprólitos, cada um no formato aproximado de uma esfera com aproximadamente 2,7 centímetros de diâmetro. Eles foram encontrados na beira do Lago Turlock, no condado de Stanislaus, norte da Califórnia. Sua idade corresponde à da formação rochosa na qual foram descobertos. Essas rochas, chamadas de formação de Mehrten, tem entre 5,3 milhões e 6,4 milhões de anos - época próxima ao surgimento dos primeiros ancestrais dos hominídeos, quando os mamíferos já haviam tomado o espaço dos dinossauros. Esses 14 coprólitos formavam dois montinhos de cocô, com várias bolinhas por montinho. 

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O que imediatamente chamou a atenção dos cientistas é que era possível observar, na superfície das bolotas, pedaços de ossos. Só era possível uma conclusão: os animais que produziram os coprólitos eram capazes de engolir pedaços inteiros de ossos, que passavam por seu sistema digestivo e saíam nas fezes. Quem já engasgou com uma espinha de peixe sabe que isso é uma proeza e tanto.

Comer ossos pode parecer um comportamento estranho, mas na verdade os ossos são um ótimo alimento. O tutano é extremamente rico em ferro e proteínas, e o osso propriamente dito possui aproximadamente 30% de proteína. O problema, é claro, é a dificuldade de mastigar, engolir e defecar sem ter o intestino perfurado. 

Mas qual seria o animal que havia produzido aquelas bolotas cheias de ossos? Examinando todos os carnívoros que habitavam a região, os cientistas concluíram que o único candidato era um parente distante dos cães e lobos modernos, um animal já extinto chamado 'Borophagos'. Fósseis desse cão já haviam sido descritos e muitos foram encontrados junto às fezes. Reconstruções do seu esqueleto indicam que ele pesava cerca de 24 kg e possuía mandíbulas muito poderosas, compatíveis com o hábito de mastigar ossos.

Descoberto o animal, restava descobrir o que ele comia. Examinando a superfície dos coprólitos e usando métodos semelhantes ao dos raios X para examinar o interior das bolotas de fezes, os cientistas foram capazes de identificar os ossos presentes no interior. Encontraram pernas de aves, mandíbulas de um castor, a base do crânio de um mamífero e pedaços de costela. 

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Entre 2% e 25% do volume dos coprólitos eram pedaços de ossos. Apesar de não ter sido possível identificar exatamente os animais devorados, os pesquisadores concluíram que as vítimas desses cães eram maiores que eles, pesando entre 34 e 100 quilos. 

Como os ossos estavam fraturados em pedaços de até 6 milímetros, os cientistas deduziram que esses predadores arrancavam pedaços inteiros das presas e os mastigavam com osso e tudo. É bom lembrar que os maiores predadores atuais, como os leões, arrancam a carne do esqueleto, mas não comem os ossos. Esses cães, que provavelmente caçavam em grupo, não eram de brincadeira.

Atualmente só existe um animal que ingere pedaços inteiros de ossos, cujos fragmentos aparecem nas fezes - são as hienas manchadas. No passado existiam lobos na Europa que tinham esse hábito. As hienas também caçam em grupo, mas muitas vezes se alimentam de carcaças deixadas por outros carnívoros. Neste caso, serem capazes de se alimentar de ossos é uma grande vantagem.

É interessante notar como nos ecossistemas surgem animais especializados em aproveitar todas as oportunidades. Se alguns animais se dão ao trabalho de caçar e desprezam os ossos, isso é uma oportunidade para animais que devoram ossos. É a reciclagem total. Nesse quesito, ainda temos muito o que aprender: nossas fezes são pobres e nosso lixo, rico. Desperdício total.

Mais informações: FIRST BONÉ-CRACKING DOG COPROLITES PROVIDE NEW INSIGHTS INTO BONE CONSUMPTION IN BOROPHAGUS AND THEIR UNIQUE ECOLOGICAL NICHE. ELIFE 7:E34773 (2018)

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