Corais e montanhas submersas precisam de mais reservas

Os dois ecossistemas oceânicos mais ricos em fauna e flora e com maior número de espécies exclusivas (endemismos) estão também entre os mais ameaçados pelos impactos diretos e indiretos das atividades humanas. Um deles - recifes de corais - é bem conhecido e já conta com avaliações aprofundadas, segundo as quais foi possível determinar 18 regiões prioritárias para ações de conservação, com base no levantamento do estado de cerca de 3,2 mil espécies.O outro - montanhas submersas - ainda é uma caixa de surpresas, até mesmo para biólogos marinhos e oceanólogos. Ambos deverão estar entre as prioridades para novas áreas de proteção, a serem recomendadas pelos 150 especialistas reunidos até 3 de junho, em Los Cabos, no México, discutindo a conservação dos oceanos.Os recifes de coral com maior diversidade de espécies estão na Indonésia-Micronésia, onde a degradação é acelerada, especialmente devido à poluição proveniente de atividades terrestres, visitação desordenada e excesso de pesca e coleta de organismos, que vivem em torno dos corais. É no Caribe, entretanto, que o risco de colapso total dos corais é mais iminente. Entre o Golfo do México e as costas da Venezuela, onde estão as maiores e mais ricas concentrações de recifes caribenhos, apenas 24% dos corais são, de alguma forma, protegidos. O grande número de países-ilhas e a sobreposição de jurisdições de 35 nações sobre os oceanos dificulta a implementação destas áreas protegidas e a criação de novas.A pressão sobre estes ecossistemas frágeis afeta o equilíbrio entre espécies e a saúde dos organismos formadores dos recifes de coral, que passam a ser mais vulneráveis a mudanças climáticas. Em 1998, devido ao El Niño - aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, com conseqüências sobre o clima de toda a Terra - ocorreram colapsos massivos de corais em várias partes do mundo. Os corais desbotaram, no prazo de um a dois meses, devido às altas temperaturas das águas. O desbotamento se deve à liberação, pelos corais, das algas com as quais mantêm simbiose e que lhe dão cor, uma dissociação que leva à morte de toda a comunidade coralínea.Cerca de 95% dos corais do Caribe e do Oceano Índico foram atingidos na época. "No Oceano Índico houve recuperação, mas no Caribe, as duas espécies mais críticas para a reconstrução dos recifes não estão mais lá", informa Callum Roberts, da Universidade de York. Cerca de 10% dos recifes de coral do mundo já são considerados irremediavlemente degradados e outros 30% podem chegar ao mesmo estado em 20 anos, se nenhuma providência for tomada. Por isso, "além de prioritárias, as ações em prol da conservação dos corais são urgentes", reitera Roberts.DesconhecidasAs montanhas submersas são elevações de pelo menos mil metros de altura, do fundo do oceano ao topo da formação, sendo que este pode estar a profundidades de 2 mil metros. Embora existam dezenas de milhares dessas montanhas, nas regiões mais profundas dos oceanos, somente mil têm nome e menos de 200 já foram efetivamente pesquisadas. Isso porque as coletas de amostras para identificação de espécies são difíceis e dependem de tecnologias - como sondas e submergíveis - desenvolvidas apenas no final dos anos 70, quando também a indústria de pesca se aparelhou para alcançar grandes profundidades e iniciou a exploração destes ecossistemas."Montanhas submersas são centros de especiação, refúgios de espécies endêmicas e zonas de distribuição para espécies ocêanicas e, portanto, promovem e mantêm a biodiversidade dos oceanos", resume Karen Stocks, do Centro de Supercomputadores de San Diego (SDSC), nos Estados Unidos. Segundo ela, cada montanha tem comunidades de plantas e animais únicas, que diferem mesmo das montanhas adjacentes. "Duas montanhas vizinhas têm apenas 21% das espécies em comum, notadamente peixes com grande mobilidade, e duas montanhas distantes mil quilômetros tem apenas 4% das espécies em comum".O mesmo isolamento genético, que torna cada montanha única, em termos de biodiversidade, dá a dimensão da fragilidade dos ecossistemas. A pesca de profundidade é realizada, em tais montanhas, com grandes redes de arrasto, que possuem transponders acústicos nas pontas, para localizar cardumes, à semelhança do sonar dos morcegos ou golfinhos.Segundo Gregory Stone, do New England Aquarium, EUA, as redes destroem o fundo por onde passam, além de capturar acidentalmente uma grande quantidade de organismos não comerciais, que são jogados fora. "Muitos peixes de profundidade, capturados acidentalmente não resistem ao choque de temperatura, porque estão adaptados a ambientes a 2º ou 4º C e são levados para fora, onde a temperatura está entre 25º e 35º C. E os peixes que tem bexigas nadatórias (pequenos reservatórios de ar para manter a estabilidade) literalmente explodem com a diferença de pressão". Em outras palavras, mesmo devolvidos ao mar, os seres capturados acidentalmente morrem. A destruição pelo arrasto e o rápido declínio dos peixes comerciais, associados a tal ambiente, levou a Nova Zelândia a declarar uma moratória de pesca em 19 montanhas submersas dos oceanos próximos. "Nas montanhas não exploradas existem em média 10% de rochas nuas e 90% de comunidades de corais, esponjas, estrelas do mar, algas e outros seres, enquanto nas montanhas exploradas com arrasto, 95% é rocha nua e apenas 5% de organismos vivos resistiram", acrescenta Laurence Madin, do Instituto Oceanográfico Woods Hole.A exploração das montanhas submersas, sobretudo por navios-fábrica europeus, japoneses e de outros países sul asiáticos, vem ocorrendo em praticamente todos os oceanos. Não há monitoramento dos impactos e nem controle, já que boa parte destas montanhas se encontra em águas internacionais. No Brasil, as principais cadeias de montanhas submersas estão localizadas entre Vitória (ES) e a Ilha de Trindade, no litoral sudeste, e ao norte da costa cearense. Mas mal se conhecem as espécies - algumas poucas amostragens foram feitas pela Universidade de São Paulo (USP) - e não há qualquer unidade de conservação.Karen Stocks / SDSCApesar de existirem dezenas de milhares de montanhas submersas em todos os oceanos, apenas umas 200 já foram pesquisadas, apresentando alta biodiversidade.

Agencia Estado,

01 de junho de 2003 | 14h09

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