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Coronavírus: China admite que perdeu a 1ª batalha

Quando essa primeira batalha é perdida, perdemos a capacidade de identificar e bloquear cada indivíduo de cada uma das cadeias de transmissão. O vírus circula mais ou menos livre pela população

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2020 | 05h00

Na guerra contra um novo vírus, o objetivo da primeira batalha é bloquear as cadeias de transmissão entre seres humanos, impedindo a propagação, ao mesmo tempo que tratamos todos os doentes. Essa guerra é considerada ganha quando os novos casos atingem zero e assim permanecem por todo o período de incubação da doença. Nessa batalha as armas são a identificação de cada registro e o isolamento (quarentena) de todas as pessoas que tiveram contato com ele. Quando essa batalha é ganha, o vírus volta a existir só nos animais em que se originou. Essa batalha foi vencida diversas vezes conta o Ebola. E a doença desaparece por anos até que um novo foco apareça.

Quando essa primeira batalha é perdida, perdemos a capacidade de identificar e bloquear cada indivíduo de cada uma das cadeias de transmissão. O vírus circula mais ou menos livre pela população. É o que aconteceu com o H1N1 e o HIV, que se juntaram a centenas de outros vírus com os quais convivemos. O objetivo da segunda batalha é controlar parcialmente a propagação, evitando o aparecimento de grandes focos. Esses focos não só facilitam e aceleram a propagação, mas podem levar ao colapso do sistema de saúde, se não forem rapidamente controlados. Exemplos foram os casos recentes de sarampo e febre amarela.

Nessa segunda batalha as armas são medidas preventivas que retardam a propagação, o uso de vacinas que fazem com que parte da população fique imune, e o fato de uma parte da população já ter sido infectada pelo vírus e, portanto, ter se tornado resistente. Essa segunda batalha é ganha quando poucos focos grandes aparecem e há controle. Nossa relação com a maioria dos vírus que nos atacam é a permanente batalha desse tipo. Existe somente um caso em que a guerra foi ganha após uma longa batalha: a varíola. Em outras, chegamos próximos da vitória, antes de sofrermos com o ressurgimento da doença, como é o caso da tentativa de extinguir a pólio.

No caso do COVID-19 (nome oficial agora do coronavírus), a primeira batalha está em andamento nos países desenvolvidos que estão tentando identificar cada caso, localizar sua origem, mapear todos os contatos e os colocar em quarentena. Na Inglaterra, foram mapeadas três cadeias de transmissão e nove casos foram identificados. Para isso quase 3 mil pessoas já foram testadas com os métodos moleculares. Apesar disso têm aparecido casos provenientes de outros países, como Cingapura.

Na China essa primeira batalha foi perdida e claramente o país, na sua maneira peculiar de lidar com informações, admitiu a derrota. As evidências que a batalha está perdida são as seguintes: o número de casos da doença, seguramente maior que os reportados 60 mil, foi admitido como incerto, pois as pessoas com casos leves ou assintomáticas deixaram de identificadas e contadas. O país admitiu que não consegue sequer testar com métodos moleculares os casos mais graves, pois o sistema de saúde em Wuhan está totalmente saturado. Mais de 1,5 mil médicos já foram infectados e quase uma dezena morreu. 

Além disso já existem pelo menos cinco outras províncias com mais de 1 mil casos, um número que era o de Wuhan em 24 de janeiro. E foi descoberto que o COVID-19 pode ser transmitido por pessoas ainda sem sintomas ou com sintomas muito leves, o que torna as cadeias de transmissão muito maiores e mais difíceis de identificar. Finalmente, epidemiologistas vêm dando declarações de que a humanidade vai conviver com o COVID-19 por anos – uma declaração desse tipo foi dada por um epidemiologista da OMS

Por outro lado, existem noticias boas. Como o número de casos é provavelmente muito maior, a letalidade do vírus deve ser muito menor que os 2% calculados inicialmente. Isso porque o número de mortes deve estar aproximadamente correto, mas o de casos deve estar grosseiramente subestimado. A China está engajada na segunda batalha, tentando evitar que a tragédia de Wuhan se espalhe pelo país e os novos casos sejam reduzidos a números que possam ser controlados, aumentando áreas em quarentena e controlando tráfego interno.

O que vai acontecer no resto do mundo durante 2020 é uma incógnita. Muito provavelmente a China vai continuar a expandir as medidas draconianas por outras áreas do país e com isso vai conseguir diminuir o número de casos. Em algum momento, vai ser forçada a reduzir ou cancelar essas quarentenas que envolvem milhões de pessoas, antes do desaparecimento do último caso, o que equivale a aceitar que vai conviver com mais esse vírus. E quando isso ocorrer dificilmente os outros países conseguirão se manter livres do COVID-19 – principalmente os mais pobres e despreparados vão conviver com surtos de tamanho imprevisível nos próximos meses.

Com um pouco de sorte, vamos descobrir que a doença causada pelo COVID-19 não passa de uma forte pneumonia viral com uma taxa de letalidade inferior a 0,5%, em que o número de casos no longo prazo será controlado pela imunidade gerada pela infecção e por uma das vacinas que estão sendo desenvolvidas hoje. O quanto a humanidade vai sofrer para chegar lá é imprevisível, pois é sempre bom lembrar que essa epidemia ainda não tem dois meses de vida.

*É BIÓLOGO

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