Marcio Fernandes / Estadão
Marcio Fernandes / Estadão

Correntes do Oceano Atlântico afetam clima global, dizem cientistas

Projeto internacional mede alterações na circulação das águas para entender seu impacto na atmosfera; pesquisadores brasileiros afirmam que falta de apoio ameaça contribuição nacional

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

16 Abril 2016 | 19h14

Um grande projeto internacional de pesquisas oceanográficas, em andamento desde 2011, concluiu que os padrões de circulação das águas no sul do Oceano Atlântico estão sofrendo transformações que poderão ter consequências imprevisíveis no clima de todo o planeta. O grupo, que envolve pesquisadores de sete países, busca agora compreender o fenômeno para estimar os impactos. Ao mesmo tempo, cientistas brasileiros envolvidos no estudo reclamam de falta de apoio e passam por dificuldades para dar sua contribuição.

A participação brasileira no projeto de análise da circulação de calor no Atlântico Sul (Samoc, na sigla em inglês) é liderada por Edmo Campos, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP). Segundo Campos, por distribuir o calor pelas diversas partes do planeta, as correntes oceânicas têm um papel central nos fenômenos atmosféricos.

“O oceano é o principal fator controlador do sistema climático. As correntes oceânicas são responsáveis por transferir uma quantidade gigantesca de calor do Atlântico Sul para o Atlântico Norte. Uma variação mínima nesse processo causa mudanças radicais na atmosfera e poderá desencadear fenômenos extremos como secas e enxurradas severas”, disse Campos ao Estado.

Para compreender o fenômeno, de importância mundial, cientistas do Brasil, França, Estados Unidos, África do Sul, Argentina, Rússia e Alemanha instalaram equipamentos de monitoramento ao longo de uma linha que se estende da sul do Brasil até a África do Sul, de acordo com Campos. 

Com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), os brasileiros assumiram a responsabilidade pela instalação dos equipamentos no segmento ocidental da linha de monitoramento. Sul-africanos e franceses se encarregaram do segmento oriental, enquanto os americanos se responsabilizaram pelos instrumentos no centro do oceano.

“Os dados obtidos até agora já mostram que o Atlântico Sul está sofrendo uma variação na quantidade de calor que circula na região tropical, com reflexos no sistema de monções dos dois hemisférios. Os resultados desse tipo de alteração são eventos extremos, como os dois anos de seca que tivemos em São Paulo”, afirmou Campos.

Dificuldades. Novos dados precisam ser obtidos para que o projeto atinja seus objetivos. Mas, para recuperar os instrumentos fixados no fundo do mar e continuar obtendo informações, é preciso realizar expedições em navios oceanográficos. Para isso, a equipe da USP contava com o navio Alpha Crucis, da universidade. Essa embarcação, porém, está fora de circulação há mais de dois anos por questões legais. 

“Precisamos urgentemente fazer o cruzeiro para recuperar os dados desses instrumentos e realizar as manutenções anuais. Temos os equipamentos já instalados e o Brasil é um dos líderes da iniciativa, mas esbarramos nessas dificuldades.”

De acordo com Campos, o navio da Marinha que foi usado inicialmente para cumprir as agendas está agora monitorando, no litoral do Espírito Santo, os impactos de vazamentos de rejeitos provenientes do colapso da barragem da empresa Samarco em Minas Gerais. Outras embarcações menores têm sido usadas de forma improvisada para tarefas complementares.

“Os instrumentos que foram fundeados custaram cerca de R$ 2 milhões à Fapesp. Havia um cruzeiro previsto para dezembro de 2013 que estamos tentando fazer até agora. Programamos um cruzeiro para o dia 14 de maio, mas não temos certeza de que vamos conseguir realizá-lo. Estamos passando constrangimento diante de nossos colegas estrangeiros.” 

Órgão. Mesmo sem o navio oceanográfico à disposição, os cientistas brasileiros conseguiriam manter o projeto em curso, caso existisse uma coordenação nacional para estudos oceanográficos, segundo Campos. Ele afirma que os pesquisadores da área precisam de uma entidade semelhante ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) ou o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). “Não temos uma instituição federal nos moldes do Inpe ou do Inmet. Tudo estava encaminhado para isso no primeiro governo Dilma Rousseff, mas houve várias trocas de ministros e no segundo mandato já não havia mais ambiente.”

O diretor do IO-USP, Frederico Brandino, faz coro. “Com uma coordenação nacional, teríamos uma mobilização política nos ministérios para oferecer apoio, como ocorre com outras questões urgentes para o País. Nossos representantes não encaram o oceano como algo fundamental, mas 98% do PIB brasileiro passa pelo mar.”

Volta ao mar. O navio Alpha Crucis, da Universidade de São Paulo (USP), deverá voltar às águas ainda em abril, segundo Frederico Brandini, diretor do Instituto Oceanográfico da USP, responsável por cuidar da embarcação. O navio está fora de operação desde dezembro de 2013, aguardando uma inspeção de segurança exigida pelas leis marítimas a cada cinco anos.

De acordo com Brandini, houve demora na contratação da empresa que fará a vistoria no navio da USP porque a licitação fracassou sucessivas vezes. A universidade teve que expandir o edital para além do estado de São Paulo e, apesar do aumento nos custos para transportar o navio, conseguiu finalmente contratar uma empresa para a inspeção do navio em novembro de 2014. O estaleiro que ganhou a licitação é a Indústria Naval do Ceará (Inace). O navio está atualmente no estaleiro, em Fortaleza.

“Com a especulação em torno do pré-sal, todos os estaleiros tinham encomendas milionárias e, por isso, não se interessavam em participar do processo de escolha da empresa que realizará a vistoria da nossa embarcação, pois nosso orçamento é de apenas R$ 3 milhões. Mas conseguimos e, se tudo der certo, teremos o navio à disposição no fim do mês”, afirmou o diretor do Instituto Oceanográfico.

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