Crânio descoberto pode preencher "vazio evolutivo"

Um crânio descoberto nos desertos da África central pertenceu ao mais antigo dos ancestrais humanos já descoberto, e pode preencher um "vazio evolutivo" na história do homem, de acordo com estudo a ser publicado amanhã na revista Nature. O fóssil, desenterrado no norte do Chade, tem entre 6 e 7 milhões de anos, 3 milhões a mais do que qualquer outro crânio hominídeo já encontrado. Com isso, a árvore genealógica humana "ganha" mais 1 milhão de anos.A nova espécie de hominídeo foi batizada como Toumai, ou "esperança de vida", nome dado na linguagem local a crianças nascidas pouco antes da temporada de seca. O nome científico é Sahelanthropus tchadensis, em homenagem à região de Sahel e ao país no qual foi encontrado.Daniel Lieberman, da Universidade de Harvard, disse que a nova espécie poderá ter o impacto de "uma pequena bomba nuclear" no estudo da evolução humana."Toumai é, possivelmente, a descoberta fóssil mais importante de nossa história recente, podendo superar a descoberta do primeiro ´homem-primata´, Australopithecus africanus, 77 anos atrás", disse o editor de paleontologia da Nature, Henry Gee.Em uma história bem resumida da evolução humana, dez milhões de anos atrás o mundo era cheio de primatas. Há cinco milhões de anos, surgem os primeiros vestígios fósseis de hominídeos. Em algum ponto nesse intervalo, humanos e chimpanzés se dividiram em linhagens distintas, mas os cientistas sabem pouquíssimo sobre esse período, pela quase inexistência de registros fósseis.Toumai é a primeira espécie inserida nessa lacuna. O homem moderno, ou Homo sapiens, tem apenas 100 mil anos.A descoberta pertence a uma equipe de 40 pesquisadores, coordenada pelo paleontólogo francês Michel Brunet, da Universidade de Poitiers.Toumai é descrito como um macho adulto, com cérebro de tamanho semelhante ao de um chimpanzé, osso frontal proeminente e face relativamente plana, ao estilo humano. É possível que já andasse sobre duas pernas, em um ambiente de rica biodiversidade, com campos, florestas, rios e lagos."A posição na qual a medula espinhal penetra no crânio não prova que ele era bípede, mas indica que poderia ser", disse Brunet. O pesquisador nega a hipótese de que o fóssil seja de uma fêmea, por causa dos dentes caninos pequenos. "O osso frontal na sombrancelha é mais grosso que o de um gorila, portanto a probabilidade de que seja uma fêmea é muito pequena. É um hominídeo."

Agencia Estado,

10 de julho de 2002 | 20h26

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.