Crânio é o mais completo de um titanossauro já descoberto no mundo

Segundo os cientistas, fóssil preenche uma lacuna na história evolutiva desse grupo de grandes répteis pescoçudos, cuja anatomia craniana ainda é pouco conhecida

Herton Escobar,

13 de setembro de 2010 | 23h59

Cento e vinte milhões de anos após ser soterrado por um deslizamento de lama e transformado em fóssil, o crânio do titanossauro agora repousa sobre um travesseiro de areia, acomodado em uma gaveta de madeira no laboratório de paleontologia do Museu de Zoologia da USP. Sobre ele, debruça-se o paleontólogo Alberto Carvalho, raspando cuidadosamente as últimas partículas de sedimento que permanecem grudadas ao osso. "Fico imaginando como ele era, como andava, o que ele comia. É tudo muito fascinante", empolga-se o cientista.

 

O crânio à sua frente é, de longe, a peça mais importante entre as dezenas de ossos e fragmentos que a equipe do museu desenterrou em Coração de Jesus (MG) nos últimos cinco anos. Um crânio completo, desde o focinho até a nuca, e ainda com a mandíbula e todos os dentes preservados nos seus devidos lugares. Em resumo: o mais completo crânio de titanossauro já encontrado no mundo, segundo o professor Hussam Zaher, atual diretor e curador das coleções de herpetologia e paleontologia do museu. "É uma descoberta para os livros de paleontologia", diz ele, principal responsável pela pesquisa. "Todo mundo que estuda dinossauros vai olhar para esse bicho."

Provisoriamente, o fóssil é chamado de Tapuiassauro, em uma referência a "tapuia", como eram chamados em tupi os índios que habitavam o interior do Brasil. O nome oficial só será revelado após a publicação do trabalho científico que descreve a espécie, já submetido a uma revista internacional.

Fora este, apenas dois outros titanossauros - um dos grupos de grandes répteis quadrúpedes que viveram no período Cretáceo - têm crânios conhecidos: o Nemegtosaurus, da Mongólia, e o Rapetosaurus, de Madagáscar. Nenhum deles tão completo quanto o do Tapuiassauro e ambos relacionados a espécies bem mais recentes, que só aparecem no registro fóssil 50 milhões de anos mais tarde, já próximo ao fim do período Cretáceo - e dos dinossauros como um todo.

Análises da camada sedimentar em que o fóssil foi encontrado indicam que ele viveu entre 110 milhões e 130 milhões de anos atrás, na primeira metade do Cretáceo. "Sua descoberta preenche uma importante lacuna temporal e fornece novas informações sobre a anatomia cranial de titanossauros avançados nos estágios iniciais de sua história evolutiva", escrevem os pesquisadores.

O Estado acompanha a pesquisa com exclusividade desde o início de 2009.

Reconstituição. Carvalho foi quem descobriu o crânio, em 14 de agosto de 2008. Uma data que ele não esquece. Era a sexta das nove expedições realizadas pela equipe na região desde setembro de 2005. "Foi difícil conter a euforia", recorda o pesquisador.

Ao todo, foram resgatados 18 ossos completos ou parcialmente completos do Tapuiassauro, incluindo vértebras, costelas, um pé e uma mão, além de 47 fragmentos associados a outras partes do esqueleto - que terá uma réplica em tamanho real exposta no museu, no mês que vem. Muitas espécies de dinossauro já foram descritas com base em muito menos do que isso: um fêmur, uma vértebra, um pedaço do crânio ou até um único dente ou uma unha.

O número e a variedade de ossos preservados do Tapuiassauro permitem responder, ao menos parcialmente, a muitas das perguntas científicas que atiçam a imaginação de Carvalho e de outros aficionados por dinossauros. Como era a cara dele? Do que ele se alimentava? Como eram seus hábitos? Até que ângulo ele podia mover o pescoço? As narinas ficavam na ponta do focinho ou no topo da cabeça? E, se ficavam no topo da cabeça, será que ele mantinha o focinho enfiado na água para se alimentar de plantas aquáticas, sem bloquear a respiração?

A reconstrução do esqueleto mostra que o Tapuiassauro vivo tinha o tamanho de um ônibus: 4 metros de altura e 13 de comprimento, da ponta do focinho à ponta da cauda. Só o pescoço tinha uns 4 metros. A cauda era um pouco mais longa, porém mais fina. E não tocava o chão. "Era como uma ponte pênsil, uma coisa equilibrava a outra, o pescoço de um lado e a cauda do outro", explica o biólogo Paulo Nascimento, doutorando do museu, que participa do projeto.

A cabeça, por outro lado, era pequena - uma característica comum a todos os titanossauros e outros grandes quadrúpedes pescoçudos da época. O crânio não chega a 50 centímetros de comprimento, bem menor do que o de um crocodilo, o que provavelmente facilitava enfiar a cara no meio das árvores para mastigar folhas. "Sem falar que, com um pescoço tão grande, seria preciso muita força muscular para sustentar uma cabeça maior", aponta Nascimento.

Tudo o que sabemos sobre:
Dinossaurospaleontologia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.