Danilo Bernardo
Danilo Bernardo

Crânio de 9 mil anos revela decapitação mais antiga das Américas

Cabeça e mãos decepadas em possível ritual foram encontradas em caverna de Minas Gerais e estudadas por cientistas brasileros

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

23 Setembro 2015 | 19h18

Um estudo liderado por cientistas da USP e do Instituto Max Planck revela o mais antigo caso de decapitação humana registrado nas Américas - há 9 mil anos - na caverna Lapa do Santos, em Minas Gerais. 

Os cientistas encontraram, em 2007, enterrado a 55 centímetros de profundidade, um crânio com as seis primeiras vértebras cervicais e duas mãos amputadas depositadas sobre o rosto em posições invertidas.  O crânio possui cortes na mandíbula e na última vértebra.

De acordo com os autores do estudo, publicado hoje na revista PLOS, há vários indícios de que não se trata do sepultamento de um "troféu de guerra" - como era comum entre povos nativos das Américas, mas de uma decapitação realizada após a morte do indivíduo, em um ritual de sepultamento. Segundo eles, isso indica que os caçadores-coletores do período já realizavam rituais mortuários sofisticados. 

Utilizando técnicas de análise de isótopos de estrôncio, os pesquisadores compararam o crânio a outros espécimes encontrados na caverna e concluíram que provavelmente se tratava de um membro do grupo local.

A apenas 60 quilômetros de Belo Horizonte, a região de Lagoa Santa, onde foi feita a descoberta, possui um dos principais sítios arqueológicos do País, com restos humanos de até 13 mil anos. Ali, o fóssil Luzia, o mais antigo das Américas, foi encontrado por cientistas franceses na década de 1970 e estudado pelo biólogo Walter Alves Neves, do Instituto de Biociências da USP, um dos autores do novo estudo liderado pelo brasileiro André Strauss, do Instituto Max Planck para Antropologia Evolucionária, da Alemanha.

Segundo Strauss, o caso mais antigo de decapitação registrado na América do Sul até agora ocorreu há 4 mil anos, no Peru. Como a maior parte dos outros casos também foram registrados nos Andes, acreditava-se que a decapitação era um fenômeno daquela região que teria se espalhado pelo continente com o aparecimento das sociedades complexas pré-colombianas. 

"O nosso estudo mostra pela primeira vez um caso de decapitação em uma reigão mais próxima do Oceano Atlântico, indicando que essas práticas podem ter sido dispersas pelo continente há muito mais tempo", disse Strauss ao Estado.

Segundo ele, a indicação de uma prática ritualizada é mais relevante que a decapitação em si. "A decapitação fazia parte de um conjunto de práticas mortuárias extremamente multifacetadas e sofisticadas que nunca haviam sido reconhecidas na região", afirmou.

Entre 2001 e 2009 foram descobertos, em Lapa do Santo, 37 esqueletos humanos do início período Holoceno. Os padrões de sepultamento dos corpos, segundo o estudo, incluíam esqueletos articulados em posições flexionadas enterrados em covas rasas e cobertos por placas calcárias, mutilação dos corpos, remoção de dentes e exposição ao fogo. 

"Temos alguns indícios de que havia práticas antropofágicas no local, mas ainda será preciso fazer mais estudos para confirmar isso", declarou Strauss.

Mais conteúdo sobre:
Arqueologia Decapitação Pré-História

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.