Vincent West/Reuters
Vincent West/Reuters

Criança menor de 3 anos tem mais chance de transmitir covid em casa que adolescente, diz estudo

Pesquisa canadense compara chance de contágio dentro da família dos menores de 3 anos com os jovens de 14 a 17 anos

Ítalo Lo Re, com The New York Times

16 de agosto de 2021 | 22h48

Crianças com menos de 3 anos têm mais probabilidade de transmitir o novo coronavírus dentro de casa do que outras faixas etárias abaixo de 18 anos, indica um estudo publicado nesta segunda-feira, 16, na revista científica Jama (Journal of the American Medical Association)

Para chegar aos resultados, pesquisadores da Public Health Ontario, do Canadá, concentraram o estudo em 6.280 domicílios em que a primeira pessoa a pegar o vírus tinha menos de 18 anos. Eles procuraram, em seguida, casos secundários ou de pessoas que se infectaram na mesma casa em até duas semanas após o primeiro contágio.

Na maioria das vezes, o que se descobriu foi que a cadeia de transmissão parou com a criança ou adolescente infectado. Em 27,3% das famílias, no entanto, ao menos um outro residente se infectou. 

Os adolescentes de 14 a 17 anos tinham maior probabilidade de trazer o vírus para casa: 38% de todos os chamados “casos-índice”. Já crianças de 3 anos ou menos foram as primeiras a ficarem doentes em apenas 12% dos lares. 

Por outro lado, foram elas as que mais transmitiram o vírus para outras pessoas dentro de casa: a probabilidade de transmissão domiciliar foi cerca de 40% maior quando a criança infectada tinha 3 anos ou menos do que quando tinha de 14 a 17 anos.

Crianças pequenas costumam ter menor interação social com o ambiente externo e tendem a ter contato físico próximo com as pessoas de casa, além de colocar as mãos e outros objetos na boca, o que ajuda na transmissão. "Uma vez que eles trazem o vírus para dentro do lar, ele pode ser espalhado facilmente", disse ao jornal americano The New York Times Susan Coffin, uma especialista do Hospital Infantil da Filadélfia (EUA). 

Conduzido na cidade de Ontario, o estudo é baseado em registros de casos de covid-19 e testes positivos de coronavírus entre os 1º de junho a 31 de dezembro de 2020. A coleta se deu, portanto, antes mesmo de a variante Delta, mais transmissível, avançar na América do Norte, o que chama a atenção de pesquisadores.

Para a infectologista da Unicamp Raquel Stucchi, o que ajuda a explicar o resultado do estudo é que, além de terem mais dificuldade de usar máscaras, crianças com menos de 3 anos exigem uma maior proximidade dos pais quando estão doentes. 

“Raramente você vai ter uma família com uma criança ‘pequenininha’ doente que vai conseguir usar máscara o tempo todo enquanto a criança está com sintomas e higienizar as mãos com toda a frequência necessária", diz. “Então, a transmissão fica muito mais fácil.” 

Ao mesmo tempo, segundo ela, crianças maiores de 3 anos e adolescentes têm um maior grau de independência para manter distanciamento depois de infectados, o que pode acabar fazendo a diferença. 

Médico infectologista e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Julival Ribeiro entende que o resultado do estudo é uma novidade, o que requer atenção no combate a essa “nova modalidade” de transmissão.

“Até então, (o que se sabia era que) os pais, os familiares infectavam essas crianças menores, e agora o estudo está mostrando o inverso”, diz o infectologista. Segundo ele, outra “grande surpresa é que o estudo não está relacionado à variante Delta, que é altamente transmissível e tem maior carga viral, e sim a outras variantes.”

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