Clayton de Souza/Estadão
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Criando espécies

'A ciência é assim: suas descobertas muitas vezes tornam possíveis coisas abomináveis'

Fernando Reinach*, colunista

20 Janeiro 2018 | 03h00

Tirar vantagem é nossa especialidade. Domesticamos seres vivos. Selecionando os mais produtivos, produzimos vacas que alimentam dez bezerros e espigas de milho enormes. Não satisfeitos alteramos o genoma das plantas para tornar seu cultivo mais simples e barato. E agora descobrimos como produzir novas espécies de seres vivos.

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É fácil entender o que é uma espécie. Uma população de seres vivos capaz de fazer sexo entre si, e gerar filhos férteis pertencem à mesma espécie. Essa é a definição.

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Todos os gorilas são da mesma espécie pois qualquer gorila macho que cruzar com um gorila fêmea vai gerar gorilinhas férteis. Todos os cachorros também pertencem à mesma espécie, pois, apesar de muito diferentes, um buldogue e um galgo são capazes de produzir filhos férteis. Diferenças entre animais da mesma espécie são chamadas raças, caso do buldogue e do galgo. Já cavalos e jumentos cruzam e produzem filhotes, mas as mulas e burros são estéreis. Portanto, o jumento e o cavalo pertencem a espécies distintas. 

Novas espécies surgem quando duas populações de uma espécie são isoladas por um longo período de tempo. Ao longo de milhares de anos, as populações vão mudando gradualmente e, ao se reencontrarem, descobrem que não são mais capazes de cruzar e produzir filhos férteis. A novidade é que um método simples e rápido de criar novas espécies foi descoberto.

Para transformar indivíduos de uma espécie em uma nova espécie é preciso conseguir que eles percam a capacidade de produzir filhos férteis com o restante dos membros da espécie. É como se eu separasse um casal de cavalos e os modificasse de tal modo que continuassem a produzir filhos férteis entre si, mas não conseguissem mais cruzar com qualquer outro cavalo ou égua. Esse casal de cavalos modificados fundaria uma nova espécie pois seus descendentes nunca mais cruzariam com qualquer outro cavalo, somente entre si.

Isso foi conseguido usando um truque genético. Os cientistas colocaram dentro do lêvedo um conjunto de genes (vamos chamá-los de ativadores) capazes de aumentar violentamente a produção de uma proteína que já existe no lêvedo, no caso a actina. Esses ativadores são um veneno mortal pois provocam a produção de quantidades brutais de actina, o que leva o lêvedo à morte.

Para que o lêvedo não morra por causa do veneno (os ativadores), os cientistas modificam o gene da actina. Essa modificação impede que os ativadores se liguem ao gene de actina modificado. Essa modificação é chamada de antídoto, pois bloqueia o veneno. Após essas duas modificações genéticas, esses indivíduos carregam o veneno e o antídoto no seu interior. Como o veneno e o antídoto se anulam, os lêvedos modificados vivem felizes, cruzam entre si, produzindo filhotes que também carregam o veneno e o antígeno. 

Aí vem a parte interessante. Quando um desses lêvedos modificados (com veneno e antídoto) cruza com um lêvedo não modificado (sem veneno e sem antídoto), os descendentes recebem o gene do veneno e do antídoto, mas também recebem o gene de actina não modificado (que não funciona como antídoto), do lêvedo normal. Quando o veneno interage com a cópia normal do gene de actina, ele é ativado. A produção de actina aumenta brutalmente, matando o filhote. Dessa maneira, todos os filhotes produzidos a partir do cruzamento do lêvedo normal com o modificado morrem. Entretanto, os filhotes produzidos por cruzamentos entre dois lêvedos modificados sobrevivem. E os filhotes produzidos por lêvedos normais também sobrevivem. Pronto, esses dois tipos de lêvedos, o normal e o modificado, passam a se comportar como espécies distintas, incapazes de cruzar entre si e produzir filhos férteis. Ficarão para sempre geneticamente isolados.

Esse truque, desenvolvido com lêvedos, já foi usado para criar novas espécies de insetos, plantas e até camundongos. As possibilidades tecnológicas dessa descoberta são enormes. A mais óbvia é transformar plantas transgênicas em novas espécies, tornando elas incapazes de cruzar com plantas normais. Isso garantiria que seus genes não sejam transmitidos para outras plantas não modificadas. E que tal transformar uma raça de cachorro em espécie? Ela nunca mais se misturaria com outras raças. Em um cenário macabro seria possível transformar uma raça de seres humanos em uma espécie, segregando essa raça de modo permanente. A ciência é assim: suas descobertas muitas vezes tornam possíveis coisas abomináveis.

MAIS INFORMAÇÕES: ENGINEERING SPECIES-LIKE BARRIERS TO SEXUAL REPRODUCTION. NATURE COMM (2017)

* FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

 

 

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